• Conjuntura
  • Seca, geada e menos boi no pasto: a variação dos preços dos alimentos em 2021 explicada pelo campo

    16/12/2021
    Veja o que ficou mais caro no prato feito e no cafezinho do brasileiro. Dos produtos básicos, arroz e feijão são os que tiveram queda no valor ao consumidor.

    Após ter disparado 14% em 2020, o preço dos alimentos continuou em alta este ano e subiu mais 7% entre janeiro e novembro, segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    No campo, uma das contribuições para a elevação de custos veio de problemas climáticos, como uma seca prolongada e geadas, que derrubaram colheitas importantes do país.

    Além disso, uma menor oferta de bovinos continuou pressionando os preços da carne, que se tornou um produto de luxo, em meio a um ano onde imagens de pessoas buscando ossos descartados por frigoríficos e açougues se tornaram comum.

    Alguns dos alimentos que tiveram mais alta de preço em 2021 foram: frango, ovos, carne bovina, açúcar, café e tomate. O óleo de soja, por sua vez, que dobrou de preço em 2020, desacelerou alta. Por outro lado, arroz e feijão registraram queda no valor ao consumidor.

    A seguir, veja os motivos de alta e de baixa desses produtos em 2021 e o que esperar para 2022:

    Frango e ovo como alternativa

    O frango (+30,42%) e o ovo (+11,3%) são as proteínas animais que mais tiveram aumento de preço de janeiro a novembro de 2021, puxado por uma maior procura do consumidor, após a carne bovina ter se tornado um produto de luxo no país. Outro fator foi o aumento do preço do milho, que vira ração para as aves.

    Apesar disso, esses alimentos se mantiveram como opções mais acessíveis ao brasileiro, ressalta o analista da consultoria Safras & Mercado Fernando Henrique Iglesias.

    "O frango continua 3 vezes mais em conta do que o traseiro bovino, que reúne partes nobres, como alcatra, picanha, filé mignon. E continua 2 vezes mais barato do que os cortes dianteiros, como acém, patinho", afirma Iglesias.

    O setor também vive um bom momento nas exportações, que devem bater recorde este ano. O Brasil é o segundo maior vendedor mundial de carne de frango, após os EUA, e tem sido um fornecedor cada vez mais requisitado diante dos surtos de gripe aviária (influenza), que atingem países da Europa e do sudoeste da Ásia.

    COMO DEVE FICAR:

    Para Iglesias, os preços da carne de frango e do ovo devem continuar elevados em 2022, refletindo ainda uma maior procura por proteínas mais baratas frente à carne bovina.

    As exportações devem continuar aquecidas, mas o Brasil tem capacidade de fornecer bastante frango ao mercado interno. Isso porque o ciclo de produção das aves é curto, tem 60 dias — bem menor que o dos bovinos, que dura de 5 a 6 anos —, o que dá mais flexibilidade para o produtor ajustar a produção à demanda.

    Em 2022, o custo com a ração das aves deve diminuir, após uma forte alta este ano provocada por uma redução da colheita de milho em função da seca.

    "A safra de milho tem melhorado e o preço da cotação do grão tem reduzido, tanto aqui no Brasil, quanto no resto do mundo. Nesse sentido, o viés do frango e do ovo devem ser de baixa, depois das festas de final de ano", diz André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV.

    Carne bovina: um produto de luxo

    Item cada vez mais raro no prato do brasileiro, a carne continuou em alta (+7%) este ano, depois de ter disparado em 2020 (+18%).

    No campo, o preço do boi bateu recordes em 2021, refletindo uma baixa disponibilidade de animais prontos para o abate. Isso porque os pecuaristas decidiram reter as fêmeas nas fazendas visando um aumento da oferta de bezerros mais à frente, afirma Iglesias, do Safras.

    A elevação dos preços do milho e da soja também encareceram os custos com ração. E a forte seca no Centro-Sul diminuiu área de pasto, levando muitos produtores a confinar o gado, o que aumenta ainda mais o custo com alimentação.

    A exportação também seguiu forte, puxada pela China, até o embargo do país asiático em setembro. A suspensão gerou até uma queda dos preços da carne no atacado em outubro e novembro, que não foi repassada ao consumidor pelos supermercados.

    COMO DEVE FICAR:

    Em 2022, a retenção de fêmeas será traduzida em uma maior oferta de bezerros em relação este ano, mas ainda abaixo de 2020, pontua Iglesias.

    "O preço da carne bovina deve recuar, mas vai se manter caro, em um patamar ainda proibitivo aos consumidores", diz o analista.

    Um dos motivos para isso, segundo ele, é que o dólar valorizado em relação ao real ainda mantém o Brasil muito centrado nas exportações, mesmo com a incerteza sobre quando e em quais as condições a China deve retomar as compras. Diante desse cenário, o país tem buscado novos mercados para escoar a proteína.

    Outro fator é a renda do brasileiro, que não tem conseguido acompanhar os fortes aumentos de preço na economia como um todo, cenário que não deve melhorar tão cedo, avalia.

    No campo, por outro lado, a expectativa de um 2022 mais chuvoso deve melhorar as condições do pasto e o crescimento da oferta de grãos tende a diminuir custo com a ração, diz Braz, da FGV.

    Açúcar disparou com seca e geada

    Dos produtos do agro, o açúcar refinado foi o destaque de alta da inflação. No acumulado do ano até novembro, o produto disparou 45,56%.O aumento foi resultado da combinação de uma seca prolongada e de geadas em julho e agosto, que provocaram uma redução da colheita da cana-de-açúcar, relembra Gabriela de Faria, analista de agronegócio da Tendências Consultoria Integrada.

    Para a safra 2021/22, a produção de açúcar tem uma queda estimada em 17,8%, em relação à temporada anterior, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

    COMO DEVE FICAR:

    Para a próxima temporada, a consultoria Safras & Mercados espera preços de estáveis a levemente mais baixos, diante da recuperação da safra de cana.

    "Isso deve acontecer em função de uma entressafra chuvosa que está se desenvolvendo atualmente no Centro-Sul. Desde agosto alertávamos sobre a entressafra chuvosa e a recuperação parcial dos canaviais", diz o analista Maurício Muruci.

    Café também sofreu com clima

    A seca e as geadas também deixaram o cafezinho mais caro, em um ano de colheita que, naturalmente, já seria mais baixa (em ano par, a safra alta, e, em ano ímpar, baixa).

    A redução da produção do Brasil, maior fornecedor global, provocou ainda aumento no preço internacional do grão.

    O café moído disparou 38,8% de janeiro a novembro, enquanto o solúvel subiu 11,37%.

    COMO DEVE FICAR:

    A planta de café não se recupera tão rápido de fortes choques climáticos e, por isso, o ano de colheita alta, previsto para 2022, não deve ser tão bom quanto o esperado, destaca Gabriela, analista da Tendências.

    "Os prejuízos nas plantações foram grandes e, com isso, o potencial para o ano que vem diminui. Os problemas climáticos atrapalham o desenvolvimento vegetativo da planta", diz Gabriela.

    Diante desse cenário, os preços do grão no campo devem se manter altos. Segundo a Tendências, o preço doméstico do café arábica deve subir 13% em 2022, após uma disparada de 73,6% este ano.

    Tomate perdeu área de plantio

    O preço do tomate manteve um ritmo acelerado de alta em 2021. Após ter disparado 52,7% no ano passado, a hortaliça subiu mais 30% de janeiro a novembro deste ano.

    A principal razão é que a cultura vem sofrendo uma redução da área plantada nos últimos dois anos, afirma o pesquisador João Paulo Deleo, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP).

    "No início da pandemia, o produtor sofreu um baque tremendo nas vendas com o fechamento dos restaurantes e ficou com receio de plantar", diz Deleo.

    Além disso, a cultura do tomate sofre muito com incidência de pragas e doenças, o que faz com que o produtor não consiga plantar na mesma terra durante um bom tempo. O custo de produção por hectare ultrapassa hoje R$ 150 mil, segundo o pesquisador.

    COMO DEVE FICAR:

    Para o Cepea, o cenário para tomate não deve mudar tanto em 2022 e, portanto, os preços devem se manter nos mesmos patamares deste ano.

    "Há uma expectativa de aumento de área plantada do tomate voltado para a produção industrial. Se houver algum excedente, pode ser que algo acabe indo para o mercado de mesa. Mas a tendência é de preços similares a 2021", afirma Deleo.

    Óleo de soja

    O óleo de soja foi um dos vilões da inflação de 2020 e seu preço dobrou naquele ano em relação a 2019, devido a uma forte exportação que diminuiu a oferta interna.

    De janeiro a novembro de 2021, porém, o produto teve uma alta bem mais tímida, de 1,52%, continuando, porém, ainda caro ao consumidor.

    O preço do óleo de soja é muito sensível ao comportamento da safra do grão e, neste ano, diferentemente do milho, a colheita não foi impactada tão fortemente pela seca, diz o economista André Braz, da FGV.

    Apesar da safra ter atrasado, a estimativa da Conab é de alta de 8,9% na colheita 2020/21, em relação a anterior, para um recorde de 135,9 milhões de toneladas.

    COMO DEVE FICAR:

    Para Braz, há espaço para uma queda do preço do óleo de soja em 2022, com a próxima safra do grão do Brasil se encaminhando para um novo recorde e com boas expectativas de colheita em outros países.

    "A soja tem tudo para continuar com preços em queda diante da promessa de uma oferta maior, o que abre espaço para outros alimentos, como óleo, farelo de soja, margarina, ficarem mais baratos", diz Braz.

    Arroz

    Outro vilão da inflação no ano passado foi o arroz, que, neste ano, ficou 15,38% mais barato para o consumidor. Essa queda nos preços, na realidade, representa uma correção e um retorno para os parâmetros pré-pandemia, explica a diretora executiva da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), Andressa Silva.

    Em 2020, houve uma alta de 76% do preço do produto, principalmente, por causa do aumento das exportações do grão. Contudo, no início deste ano, o setor acabou não embarcando tanto, pois a comercialização estava mais rentável internamente.

    “A gente não teve muita competitividade, aí perdemos essa janela (de exportação) e agora no segundo semestre a gente está com mais produtos no mercado e isso ajuda a enfraquecer os preços”, afirma Andressa.

    COMO DEVE FICAR:

    Desde novembro, as exportações voltaram a tomar fôlego. Considerando isto, a diretora acredita que, em janeiro, o estoque de arroz brasileiro já não deve ser tão grande.

    Ainda assim, o preço deve se manter estável, pois, em fevereiro, entra uma nova safra para ser considerada.

    Feijão

    Apesar de problemas na lavoura do feijão, como a seca, o preço do feijão carioca ao consumidor recuou 5,61% no ano até novembro.

    Essa queda aconteceu, principalmente, pela baixa procura depois de o poder aquisitivo da população também declinar com a ausência do auxílio emergencial, pontua Marcelo Eduardo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão, Pulses e Colheitas Especiais (Ibrafe).

    “A gente percebe que a demanda caiu na medida em que os preços subiram e aí começaram a trazer o preço (do feijão) para baixo de novo”, explica.

    Além disso, ele afirma que o volume de feijão colhido em agosto, setembro e outubro foi o suficiente para abastecer o mercado até o fim do ano.

    COMO DEVE FICAR:

    Lüders diz que, na lavoura, o valor da leguminosa já começa a crescer novamente. Entre as razões para isso, estão as compras do produto pelo governo para a distribuição de cestas básicas. Há também a expectativa de que o consumo aumente com a disponibilização do auxílio Brasil para a população.

    Somado a estes fatores, alguns problemas no campo, como o aumento do preço dos insumos, impactaram a safra que é plantada em dezembro. Por isso, o valor será sentido quando ela for comercializada.

    Por Paula Salati e Vivian Souza, G1

     



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