• Conjuntura
  • Que carne que vai pra onde?

    22/06/2015
    Governo anuncia abertura de mercados para uma carne que está minguando

    Diminui número de frigoríficos no Brasil e tem muita gente sem trabalho: que carne vai para tantos novos mercados? Foto do autor.

    Daniel De Paula*

    Afinal, em quem acredito? Numa realidade que mantém a cadeia produtiva com situações conflitantes? Ou num governo que insiste em propagandear algo que, em primeira análise, é difícil de cumprir? Em meio a fechamento de plantas frigoríficas por falta de bois, a ministra da Agricultura anuncia abertura de mercado para a nossa carne em economias como Japão, Estados Unidos e até Argentina. O que é mais real?

    Se os números fossem mais expressivos, diríamos que a estabilidade da pecuária na ponta que produz a carne incomoda a que distribui. O pecuarista está valorizado em seu produto que a própria indústria encomendou para atender escalas nacionais e internacionais. O destemor no investimento em tecnologias e responsabilidade de produção, aquela sustentável e com valor agregado, levou o mercado a reconhecer esse elo com a devida remuneração. E isso não deve mudar, muito, pelo que vêm dizendo e escrevendo autoridades no assunto em grandes consultorias.

    O problema é que grupos industriais, que sempre cobraram esse valor agregado para remunerar, hoje se veem reféns de mercados que eles precisam atender. Estão com a batata quentíssima na mão, mas ainda se sustentam na pequena valorização da carne brasileira lá fora. Por sazonalidade ou oscilação da economia e do mercado consumidor, o Cepea indicou queda de 0,7% no preço da @ em maio, mas acumulando 25% de baixa no ano. Ainda assim.

    Independente disto, o preço hoje pago ao produtor é o que ele vislumbrava há uma década – e que alcançou em pouco mais da metade desse período. Mesmo com um custo de produção em constante ascensão, ele vem equilibrando suas contas, produzindo com inteligência a carne de qualidade que a indústria sinalizou como prioritária para levar ao Exterior.

    Pouco – quase nada – é ainda mais bem remunerado em programas de carne de grife, que alguns frigoríficos criaram para dotar boutiques de carnes e restaurantes nobres de carne “premium”. Mas essa não é a realidade da nossa pecuária macro, que deve diminuir a exportação este ano, segundo todas as análises. Pouco, mas cai.

    Os números que mais chamam atenção, entretanto, são as demissões em massa causadas pelo fechamento de 26 plantas de diversas etiquetas no Brasil. Só em Mato Grosso do Sul foram 10 frigoríficos encerrando – temporariamente ou não – as atividades, porque alegam não ter boi para abater.

    Apesar de ilógico, pelo tamanho da pecuária brasileira, o compreensível da questão está nas medidas restritivas de algumas regiões produtivas, que limitam o avanço da pecuária. Mesmo obtendo mais produção em menor área, os pecuaristas se afugentam no enxugamento do rebanho para garantir renda com o que alcançou ao longo dessa década – abate de fêmeas, para controlar preço.

    Agora, o contrassenso: se está faltando bois, como entender a segurança nas palavras de Kátia Abreu, que essa semana, em evento da BM&F-Bovespa, em São Paulo, chegou anunciar com euforia que o Japão deve importar carne in natura do Brasil, em troca de colocar por aqui o seu kobe beeef, a famosa e decantada carne de Wagyu. Só não está especificado quanto disso vai acontecer para um lado e para o outro e quando vai se dar.

    Para os EUA, falta aquela eterna papelada, segundo a ministra. As missões já se acertaram de boca e de visita cá e acolá, mas falta o principal: as cerificações, o mais demorado, o mais burocrático e complicado. Daí se pode pensar em embarcar, pagar, receber, comer. Mas, como o governo gosta de falar antes de saber da viabilidade, convivamos com mais essas declarações que por enquanto são utópicas.

    A ministra está com malas prontas para viajar com Dilma Roussef em julho. Depois que a presidente voltar de um encontro com Barack Obama para tratar desse assunto, as duas vão juntas a Moscou para reunião dos Brics, a fim de consolidar uma tal “prelisting” (?!) de exigências do países que importam a nossa carne ou que “podem” – e não “devem”, por enquanto, pelo menos – fazê-lo.

    Tem um monte de protocolo que ainda precisa ser assinado de um lado e de outro, até que as negociações aproximem nossa carne da Rússia, com quem Kátia Abreu disse estar bem avançado, e da China, com quem o governo quer aproveitar o anúncio de US$ 50 bilhões de investimento feito pelos chineses em recente visita por aqui.

    Pelo que temos visto ao longo dos últimos anos, as tradings continuam o rastreio de mercados externos para envio da nossa proteína vermelha. Quem é sério não entra no clima de já ganhou, que aparece em discursos como o da ministra da Agricultura essa semana – e que foi lema em campanhas políticas para manter essa turma no poder por 13 anos.

    Até porque o governo terá coisas muito mais imperiosas para cuidar do que tentar controlar o que já garante boa parte da nossa economia – que é o setor de carnes.

    Essa conta da pecuária já está fechada. Pende prum lado um pouquinho hoje, pro outro mais ali na frente, mas não derruba ninguém que trabalha sério. A coisa está mais feia na saúde do governo, que é o que preocupa mais.

    A pecuária é tão forte e tão estável, que nem alguns respingos dos nossos escândalos políticos e econômicos devem abalar. Mesmo porque o mundo precisa comer. Precisa da nossa carne. E apesar de tirarem dinheiro de circulação dentro da nossa economia, o brasileiro continua se alimentando muito bem, obrigado.

    *Daniel de Paula é publicitário e jornalista, repórter do Canal do Boi, canal integrante do SBA.

    Fonte: Enfoque / Rural Centro

     


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