• Nutrição
  • Pasto,a cultura que move a pecuária nacional

    28/10/2021
    A pastagem pode determinar o sucesso ou fracasso de um empreendimento pecuário, mas nem sempre recebe os tratos necessários

    Por: Adriana Ferreira

    Segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e do IBGE, o Brasil possui um rebanho de 214,8 milhões de cabeças de gado. A carne representa 15,75% dos produtos exportados pelo agro (IBGE 2021), colocando o país na posição de segundo produtor mundial e primeiro maior exportador (USDA).

    O movimento do agronegócio da pecuária de corte em 2020 foi de R$ 747,05 bilhões, 20,8%acima dos R$ 618,50 bilhõesregistrados em 2019, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Esse volume inclui todos os negócios e movimentações relacionados à cadeia, incluindo desde valores dos insumos utilizados na pecuária, passando por investimentos em genética, sanidade animal, nutrição, exportações e vendas no mercado interno.

    A competitividade da pecuária brasileira está ligada, de maneira umbilical, ao pasto, que corresponde a 95% dos insumos para a produção de carne, sendo a base de sustentação do setor. Por isso, seu manejo é um aspecto essencial para a melhora dos índices produtivos. Apesar desse fato, muitas vezes, a pastagem é negligenciada.

    De acordo com o engenheiro agrônomo e professor do Departamento de Zootecnia da ESALQ-USP Carlos Guilherme Silveira Pedreira, dos 850 milhões de hectares que perfazem o território nacional, cerca de 180 milhões são ocupados por pastagens. “Metade disso se encontra em algum grau de degradação, desde pastagens levemente degradadas até outras em avançado estado de degradação. Teoricamente, o restante está em bom estado”, explica Pedreira.

    O professor salienta que degradação de pastagens é um tema central na pecuária brasileira. “O nosso modelo pecuário nasceu extrativista e de certa forma ainda persiste como tal. Está deixando de ser e, aos poucos, se profissionaliza e se tecnifica. Mas a pecuária está provavelmente uns 30 anos atrás da agricultura em termos de aplicação de tecnologia.”

    Ele comenta que todos ganham com o processo de tecnificação, pois se abrem oportunidades de trabalho para muitos profissionais, e o setor passa a oferecer “um produto melhor, mais barato, mais seguro e mais sustentável”.

    Historicamente, as piores áreas das propriedades agropecuárias foram destinadas pelos produtores às pastagens, enquanto as melhores são destinadas à agricultura. “Muitos estabelecem pastos em áreas acidentadas, de baixa fertilidade, suscetíveis à erosão, onde não se consegue mecanizar para fazer adubação ou combater uma praga. Depois, quando o pasto é malformado, o produtor culpa o capim pelo insucesso. Mas o capim não é ruim, o problema são as condições que deram a ele”, afirma Pedreira.

    Segundo o professor, na ESALQ, há pastos com 60 anos de idade, até hoje produtivos. “Damos condições ao pasto para que ele manifeste a característica de ser perene. Não tem segredo, a gente repõe fertilidade, faz manejo, combate pragas e doenças”, resume.

    Na conclusão do especialista, se um pasto está em degradação é porque algo foi negligenciado. “Manejo errado e esgotamento de fertilidade são as causas principais. É impossível manter a perenidade do pasto sem que haja tratos culturais”, reforça.

    Ele lembra ainda que renovar uma pastagem degradada frequentemente custa mais caro que fazer a sua manutenção. “Pasto bem cuidado simplesmente produz mais. Se o pasto está debilitado e colocam-se muitos animais, ele acaba de vez. Ao invés de produzir 5-10 toneladas de matéria seca por hectare/ano, por que não dar as condições que a planta precisa e produzir 30-35 toneladas? Colocando mais animais por unidade de área e produzindo mais carne e mais leite por hectare por ano?”

    O professor argumenta que o pasto talvez devesse ser tratado ainda melhor que as culturas anuais. “Para uma cultura anual, como a soja, o milho e o feijão, por exemplo, o produtor escolhe uma área boa, prepara o solo, faz análise dele, escolhe semente boa e regula a máquina para plantar. Se der praga, usa o defensivo. A planta produz a vagem, a espiga, o grão e morre em seguida. Se tratamos tão bem uma cultura que vai durar um ano, não seria lógico dar melhor tratamento a uma outra que é perene (o pasto!) e que a gente espera que dure 10, 20, 30 anos?”

    Para Sergio José Alves, engenheiro agrônomo e pesquisador do Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR), pertencente à Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Paraná (Emater-PR), em muitos casos, o criador não cuida adequadamente da pastagem porque não sabe medir a produtividade do pasto.

    “Fuia uma propriedade e o produtor tinha duas pastagens parecidas. Uma ele tinha adubado, a outra não. A conclusão dele é que estavam parecidas e que a adubação não tinha valido a pena.

    Mas não era bem assim, o pesquisador pediu que levantassem a quantidade de animais que passaram em cada pasto nos últimos anos. “A área adubada tinha nível de utilização da pastagem três vezes superior. Os animais voltavam mais rápido e ficavam mais tempo”, afirma Alves. Após comprovar os efeitos positivos, o criador passou a adubar a propriedade inteira.

    Outro erro comum, segundo o pesquisador da Emater, é fazer a adubação e não melhorar o manejo. “O pecuarista tem dificuldade de enxergar a resposta da adubação, que tem de combinar com uma série de medidas, e acaba desacreditando da pastagem”, sintetiza.

    O engenheiro agrônomo observa que, a cada ano, a área com soja cresce em 1 milhão de hectares, avançando sobre o pasto. “Por outro lado, quando se tem de 5 a 12 cabeças por hectare, a pastagem é uma das atividades mais rentáveis do país”, destaca.

    Mas só adubar e ter produtividade alta no verão é pouco. “Tem de ter pastagem de verão e comida para o período seco e mais frio do ano.” Para tanto, a integração lavoura-pecuária tem se mostrado uma boa opção.

    “Em uma mesma propriedade, trabalho com duas áreas. Separo uma pastagem, adubo, manejo, coloco cerca elétrica e aumento as rotações. E, em outra parte da propriedade, que está mais degradada e que tenha solo e clima satisfatório para lavoura, ponho soja. Depois da soja, ponho pastagem de inverno. Assim, temos feito animais com 18 meses de idade a pasto, o que é altamente rentável”, relata Alves, reconhecido como um dos maiores conhecedores de ILP no país.

    A estimativa é de que haja mais de 20 milhões de terras com ILP no Brasil. “A área continua crescendo e o sistema é sustentável”, afirma.

    O engenheiro agrônomo Rodrigo Amorim, supervisor do Grupo de Pesquisa Vegetal da Embrapa Gado de Corte, explica que, “viade regra,a produtividade média das pastagens deve estar em torno de 4,5 @/ha/ano. Isso equivale a praticamente 0,98 @/ha/ano, quase um animal por hectare, ganhando 350 gramas”. E emenda: “Esse é o modal nacional, porém, temos potencial, sem nada de extraordinário, para chegar em 20@/ha/ano. Ou seja, três vezes o que produzimos hoje. Quer dizer, estamos deixando de ganhar”.

    A receita para se atingir esse resultado, de acordo com Amorim, incluifazer o correto trabalho de implantação, conhecero solo e o clima da propriedade, corrigiro solo, fazer adubação de formação, manejar bem ao longo do tempo, monitorar as condições do solo com frequência erepor nutrientes de acordo com as quantidades exigidas para cada cultura econforme o nível de produção que se deseja. “Se fizer isso, o criador chega ao nível que almeja em termos de sistema de produção”, afirma.

    “Quando pensamos em pastagem, é conhecido que grande parte das áreas brasileiras está com algum nível de degradação, e isso mostra que existe uma grande margem de crescimento para a pecuária.Imagine se os produtores conseguissem utilizar as suas áreas degradadas de uma forma mais eficiente, não é necessário buscar novas áreas de produção, podemos melhorar as que já existem”, comenta o engenheiro agrônomo André Tsuhako, do Grupo Matsuda.

    O profissional enumera as vantagens de se oferecer os tratos culturais que o pasto precisa. “O produtor consegue aumentar sua carga de lotação e taxa de pastejo, uma melhor capacidade de rebrote, uma melhor eficiência fotossintética, uma maior produção de forragem, um maior aproveitamento da pastagem pelos animais são alguns exemplos desses benefícios.”

    Tsuhakolembra das consequências do clima na elevação do preço dos insumos e o custo da produção. E recomenda:“Para o produtor conseguir se manter no mercado ou melhorar sua rentabilidade, existem algumas formas, uma delas é aumentar sua produtividade, pois reduzir os custos de produção está cada vez mais difícil”.

    Ele sugere algumas estratégias como adubação de manutenção, manejo de pasto por altura, divisão de pastagem, cultivares mais produtivas e irrigação. “Quando o preço dos insumos está elevado, é necessário o produtor ter em mente que ele não pode errar, nessas situações é importante escolher os melhores produtos e tecnologias para conseguir uma maior eficiência e garantir que o investimento será retornado.”

    Forragem certa

    Conforme orienta o engenheiro agrônomo Tsuhako, para determinar a escolha de uma espécie forrageira, alguns fatores devem ser levados em consideração, como característica de cada espécie forrageira e as características da área de plantio.

    Cada espécie forrageira tem um tipo de aptidão, tais como: manejo, tipo de solo, distribuição de forragem, hábito de crescimento, qualidade de forragem, tolerância ou resistência aos ataques de pragas e doenças.

    “Na área de plantio, devemos observar os fatores limitantes, sendo eles a fertilidade de solo, tipo de solo, grau de drenagem, profundidade do solo, topografia, categoria e espécie animal, ataque de pragas e outros fatores. Associando o conhecimento das espécies forrageiras com as características da área, podemos recomendar uma espécie forrageira para o produtor”, conclui.

    Paulo Bardauil, consultor e ex-diretor do Instituto de Zootecnia de São Paulo, ligado à Agência Paulista de Tecnologias do Agronegócio (Apta), lista as cultivares mais plantadas no Brasil: Brachiariabrizantha 'Marandu', 'Piatã', 'MG 5 Vitória'Brachiariadecumbens 'Basilisk'; B. humidicola B. dictyoneura 'Llanero'Brachiariaruziziensis[CdM1>  (para fins agrícolas); Panicummaximum 'Zuri', 'Quênia', 'Mombaça', 'Par edão', 'Myiagui', 'Massai'.  
     

    O futuro

    A pecuária extensiva vem perdendo terreno para sistemas mais intensificados. A busca por informação, a profissionalização e a adoção de tecnologias, por parte dos pecuaristas, resultam em aumento da produtividade dos rebanhos. E esse movimento tende a se acelerar, na visão dos especialistas.

    As áreas de pastagem do fim dos anos 1990 até 2010 tiveram diminuição de quase 20 milhões, de acordo com Pedreira, da ESALQ. “Tínhamos produtividade de 40 quilos de carcaça por hectare/ano no início da década de 2000. Já em 2010, estávamos com 60 quilos. Parece pouco, mas é um aumento de 50%.  Grande parte do sucesso se deve à tecnologia de pastagens, estudo de manejo, fertilidade do solo e nutrição de plantas, melhoramento genético e lançamento de novos cultivares, uso de sistemas integrados, como LPF, e outras tecnologias advindas da pesquisa”, diz.

     “Com a profissionalização, os modelos extrativistas não se sustentam mais. Os países que têm pecuária avançada abatem animais bem mais jovens que no Brasil. Mas estamos chegando lá. Nossa pecuária é pujante e será mais ainda num futuro não muito distante, conclui o professor.

    Na avaliação de Amorim, da Embrapa, nem tudo que é extensivo vai virar intensivo. “Muitas áreas próximas de locais de maior valor tendem a perder espaço para culturas anuais, soja, milho, algodão. E a pecuária tende a migrar para áreas marginais, com algum tipo de problema de solo, com deficiência de drenagem. A pecuária deve se tornar um pouco mais intensiva, isso é bom, mas também perdemos essas áreas para a produção de grãos.”

    Alves, do IDR/Emater, assinala a tese de que vamos continuar produzindo bastante carne em rotação com a agricultura e passaremos a ter produtividades mais altas na pecuária, com redução do tamanho do sistema extensivo e aumento do intensivo. “Quando na mesma propriedade tem pasto de inverno e de verão e soja, haverá a possibilidade de mais confinamento.”

    Ele também acredita que a adubação de pastagem vai crescer. “Há uma revolução acontecendo na pecuária, um pouco puxada pela ILP. Vai mudar muita coisa, no curto prazo”, prevê.

    Pasto de qualidade o ano todo  

    Fábio Castro Loureiro pertence à quinta geração de pecuaristas de sua família. Seu trisavô, em 1916, trouxe de Alfenas (MG) os primeiros animais da raça caracu que chegaram ao Paraná. 

    A sua propriedade fica no município de Reserva, região central do Estado, e trabalha com a raça caracu, da variedade mocha, há 50 anos. Com o sistema ILP, sua propriedade tem pasto de qualidade o ano todo. No verão, usam pastagens perenes, alguns tipos de brizantha. Já as pastagens de inverno usam aproximadamente 30% a 40% de azevém e de 60% a 70% de aveia.  

    Sazonal, a pastagem de inverno inicia o pastejo em junho e termina no fim de outubro, começo de novembro. Ela é utilizada nas áreas de lavoura, corrigidas e adubadas durante o verão.  

    A fazenda trabalha com animais puros, com carimbo e chancela da Associação Brasileira de Caracu, da qual Loureiro é membro. “Trabalhamos com qualidade, cem matrizes registradas, fazemos cria e recria e vendemos animais puros. Machos são destinados a touro, que vão para rebanhos puros ou para cruzamento industrial com vacas zebuínas. Vendemos também vacas, novilhas e bezerras registradas para criadores de rebanho puro”, explica o produtor. 

    Ele conta que, durante a pastagem de inverno, os animais estão na área de lavoura e que evita a compactação e condensação que pode ocorrer por conta de número grande de animais em cima da área que será destinada à lavoura no verão. “As nossas vacas têm de entregar um bezerro ao ano, pesado com 40% a 50% do peso da vaca.” 

    Ele reconhece a importância dos cuidados com a pastagem e os resultados para o seu negócio. “Uma oferta boa de comida para os animais é meio caminho andado. Plantamos pastagens de inverno de qualidade, na época adequada, aumentando a produtividade e, logicamente, a lucratividade”, comenta.  

    Por Adriana Ferreira - Jornal do Engenheiro Agrônomo, Ed. 321. 



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