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  • O que a dieta do gado tem a ver com os gases de efeito estufa?

    07/10/2021
    Mais do que se imagina: estudos mostram que a alimentação bovina pode ser a solução para uma pecuária sustentável no mundo todo

    Em julho, a JBS e o Instituto de Zootecnia (IZ) do Estado de São Paulo firmaram uma importante parceria para estudar o uso de aditivos que melhorem a eficiência dos nutrientes na alimentação dos animais na cadeia bovina. O objetivo é reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE). 

    Mas o que a dieta do gado tem a ver com o aquecimento global? Muita coisa. 

    Durante a digestão de ruminantes – como bois, ovelhas e cabras –, micróbios no trato digestivo, ou rúmen, decompõem e fermentam os alimentos.

    Esse processo natural, chamado de fermentação entérica, tem como subproduto o metano (CH4), um potente gás de efeito estufa, que é liberado na atmosfera pelo arroto e estrume dos bichos. E é principalmente por conta disso que grande parte das emissões de GGE na agropecuária veio da criação de gado nos últimos anos. 

    Esse cenário, porém, está começando a mudar graças aos investimentos em pesquisa na busca por soluções relacionadas à nutrição dos animais, para torná-los menos gasosos.

    Prova disso é o empenho conjunto da JBS, segunda maior empresa de alimentos do planeta, com o IZ. O instituto, inclusive, conta com um novo laboratório, especializado em fermentação ruminal e nutrição de bovinos de corte, um dos poucos do mundo com tecnologia para estudos no ramo.

    No experimento, os animais do confinamento da JBS em Guaiçara (SP) serão acompanhados por cerca de seis meses. Um dos aditivos a serem testados são os taninos, compostos presentes em plantas que tornam mais eficiente a fermentação do alimento do gado, diminuindo assim a produção do metano biogênico. 

    Paralelamente, a pesquisa será validada no novo laboratório. “Temos um equipamento que simula as condições do rúmen, que é a parte anterior ao estômago do animal. Esse rúmen artificial permite que a gente acompanhe as transformações que ocorrem no processo de fermentação e meça com precisão o potencial de aditivos para reduzir as emissões”, explicou Renata Branco Arnandes, pesquisadora responsável pelo estudo.

    A participação da JBS em pesquisas para diminuir as emissões de GEE no campo é parte do programa Net Zero 2040 da empresa, que assumiu o compromisso de zerar suas emissões líquidas até 2040. O objetivo é reduzir as emissões diretas e também em toda a cadeia de valor, além de compensar as emissões residuais.

    No caminho certo

    Na Universidade da Califórnia, em Davis (EUA), outra pesquisa relacionada à dieta bovina já mostrou excelentes resultados.

    De acordo com as descobertas dos pesquisadores da instituição, publicadas em março na revista científica PLOS ONE, acrescentar um pouco de alga marinha à alimentação do gado pode reduzir as emissões de metano em até 82%. E sem alterações na carne e no leite.

    Segundo o professor Ph.D Ermias Kebreab, principal autor do estudo, olhar para a alimentação do rebanho é o caminho para uma pecuária sustentável. “A pecuária desempenha um papel vital na alimentação das 10 bilhões de pessoas que em breve habitarão o planeta. Como grande parte das emissões de metano vem do próprio animal, a nutrição desempenha um importante papel na busca de soluções”, disse ao UC Davis.

    Um novo olhar para o metano

    Também do campus de Davis da Universidade da Califórnia veio outra pesquisa relevante, que revê o impacto do metano e o tira do papel de grande vilão para, surpreendentemente, colocá-lo como aliado na batalha contra as mudanças climáticas. 

    “Temos olhado para o metano incorretamente quando se trata de reduzir o aquecimento”, afirmou o professor Ph.D Frank Mitloehner, chefe do Centro de Conscientização e Pesquisa Ambiental (CLEAR) da UC Davis e responsável pelo estudo ao lado do colega Ermias Kebreab. 

    pesquisa ressalta que sim, o CH4 é um poderoso GEE, porém seu dano ao meio ambiente deve ser medido de forma diferente, porque o metano dos animais não dura por séculos como o dióxido de carbono. 

    Ao contrário, é um gás de curta duração e permanece na atmosfera por 12 anos, até ser quebrado e convertido em CO2 – e não um novo CO2, mas um que já existia antes na natureza e só foi reciclado nesse fluxo. Então, na verdade, após 12 anos, o metano biogênico é destruído mais ou menos na mesma medida em que é emitido. 

    Isso quer dizer que, nesse ciclo, enquanto as emissões dos rebanhos ficarem constantes por mais de 12 anos, nenhum metano extra – ou aquecimento – está sendo acrescentado à atmosfera, como ocorre com outros gases de efeito estufa, que só aumentam o estoque existente. 

    E os pesquisadores foram além, identificando que o gás pode, aliás, ser parte importante da solução para a crise climática.

    A lógica é a seguinte: já que o ciclo do metano, desde que emitido na mesma quantidade, faz com que ele se mantenha estável, caso as emissões dos rebanhos sejam reduzidas (por meio da dieta, por exemplo), pode ser gerado um aquecimento negativo. Seria uma espécie de “resfriamento”.

    “Se aumentarmos as emissões de metano, o aquecimento aumentará, e certamente precisamos evitar isso”, ponderou Mitloehner. “Mas se formos capazes de reduzi-lo, como fizemos aqui com rebanhos menores e mais eficientes e digestores de laticínios, então coisas boas podem acontecer.”

    Por: Exame



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