• Nutrição
  • Erros mais frequentes no manejo nutricional de rebanhos leiteiros com vacas confinadas

    31/05/2016
    Assumir que o que foi colocado na frente das vacas é o que foi balanceado pode ser um grande erro

    Você se preocupa com o que suas vacas comem? A dieta delas é balanceada por um nutricionista ou você compra o concentrado e ainda está na velha relação 1: 3 (1 kg ração : 3 kg de leite)? Mas, independente disso você acredita que elas estão comendo o que você acha que elas estão? Ou são suas vacas que estão definindo o que elas comem?

    Assumir que o que foi colocado na frente das vacas é o que foi balanceado pode ser um grande erro. E assim, não certificamos as 3 dietas bases dentro de uma fazenda, sendo elas: 1) Dieta do nutricionista (mesmo que você esteja usando a relação 1:3); 2) Dieta do tratador e 3) Dieta que realmente a vaca ingeriu. É muito importante que essas 3 dietas estejam bem próximas uma da outra.

    Uma maneira prática de avaliar se o que está na frente das vacas em termos de nutrientes é o que você visualiza na tela do computador é fazer análises bromatológicas da dieta. Você pode pensar “esse cara está doido, pois não tenho análises das forragens e insumos (2 grandes erros!!!) de minhas vacas quanto mais ter ou fazer análises de dietas”. Aí vai um conselho de quem acompanha dietas de vacas a mais ou menos 10 anos: O custo de uma análise é muito barato pelo seu benefício. E dieta é o item mais pesado da planilha de custo de produção de leite, ou seja, não podemos ser amadores nesse item. Precisamos alimentar as vacas de forma balanceada para que elas expressem todo seu potencial produtivo, independente da raça. Isso significa dizer, por exemplo, em nunca tirar 10 kg de leite numa vaca com potencial para 15 kg. E na maioria das vezes esses 5 kg de leite a mais não vêm por você ter dado mais concentrado para a vaca e sim de fatores como: qualidade da forragem, concentrado bem balanceado que supre as deficiências dessa forragem, mistura bem feita desse e de outros insumos (subprodutos) com a forragem quando o gado está confinado (ano todo ou na seca nos sistemas de pasto), linha de cocho adequada, conforto animal, entre outros.

    Abaixo temos uma tabela com a composição nutricional da dieta de um lote de alta produção balanceada para 32 kg, porém a dieta foi feita manualmente.

    Essa tabela nos mostra que a dieta na frente da vaca (tratador) não é a dieta balanceada (nutricionista) vista na tela do computador. Como podemos observar a principal diferença está nos carboidratos (FDN e CNF), onde o carboidrato fibroso (FDN) da dieta do tratador está muito alto. No ponto onde foi coletada a amostra, provavelmente o tratador deixou cair mais silagem (que tem mais fibra e menos concentrado) que é de fibra baixa (Foto 1). Qual a implicação disso para as vacas que comem desse lado do cocho? E para as vacas que comem do outro lado do cocho, onde caiu mais concentrado e menos forragem? (Foto 2).

    Na primeira situação (foto 1) teremos o risco da doença metabólica cetose subclínica, uma doença metabólica. As vacas desse lote são de alta demanda de energia e a dieta nesse ponto está com baixa densidade energética, pois a fibra (FDN) está muito alta e o carboidrato não fibroso (CNF), que gera mais energia por kg de consumo para a vaca, está muito baixo (Tabela1). Essas vacas, principalmente as de baixo DEL (dias em lactação), irão mobilizar muito da sua condição corporal, isto é, irão emagrecer criando o risco de cetose. Entretanto, no outro lado do cocho (foto 2) teremos o contrário, ou seja, falta de fibra (FDN) e excesso de CNF levando as vacas a um risco de acidose. Além disso, o tratador não misturou bem a dieta, o que permite que a vaca selecione ainda mais o concentrado, agravando a situação. Pode-se dizer então que na mesma linha de cocho criaram-se dois riscos metabólicos: cetose e acidose.

    A consequência será menor eficiência produtiva e reprodutiva das vacas desse lote. É importante salientar que para cada 1 kg de leite que as vacas perdem no pico de produção (que normalmente ocorre entre a 4ª e 8ª semana pós-parto) elas irão perder algo entre 200 a 220 kg de leite na lactação total.

    A melhor maneira de termos uma dieta bem misturada principalmente em rebanhos grandes é o uso de uma Totalmix (vagão misturador de dieta). No entanto, o uso incorreto dessa máquina também pode proporcionar dietas de riscos.

    A tabela dois mostra a análise de uma dieta de vacas também de alta produção onde houve erros de mistura. Conforme podemos observar a principal diferença está novamente nos carboidratos (FDN e CNF). Nesse lote o risco metabólico é acidose, pois a quantidade de fibra (FDN= 25,6%) é baixa para vacas pós-parto. Essa dieta caía inicialmente para o lote pós-parto, onde as vacas ficavam por volta de 10 a 20 dias, e as avaliações de consumo mostravam que as vacas estavam comendo 40 a 50% do recomendado, indicando haver algum problema. Várias estratégias foram feitas no sentido de melhorar o consumo sem êxito e não desconfiávamos da dieta, pois visualmente se mostrava bem misturada e com tamanho de partícula adequado. Após a análise e com os resultados da tabela 2 mais o dado do baixo consumo identificamos que as vacas realmente estavam com acidose. Nesse caso, foi diagnosticado que o vagão não estava misturando bem por excesso de carga. Após consertar esse manejo e, por precaução, entrar na dieta com uma fibra mais longa (na época tifton picado verde) o consumo desse lote voltou para o recomendado. E foi perceptível que os animais estavam com mais saúde, o que não vínhamos antes. Assim, nem sempre o que está na frente da vaca é aquilo que estamos vendo na tela do computador na hora do balanceamento.

    Outro erro muito frequente acontece nas fazendas que trabalham com fórmulas de concentrados comerciais, utilizando sempre a relação 1:3, ou seja, composição fixa de nutrientes o ano todo. É preciso considerar que as vacas em um sistema a pasto não comem o mesmo tipo de forragem durante todo o ano. No verão, tem-se pasto e na seca, dependendo da fazenda, pode-se ter cana de açúcar ou silagem (de milho, de sorgo ou de capim elefante). Lembre-se: o concentrado tem de suprir a deficiência da forragem que você está dando para seus animais. Se a fábrica, ao formular esse concentrado, usa como referência a forragem silagem de milho, esse concentrado estará balanceado para ela e não será um bom concentrado paras as outras opções de forragens. Na tabela 3, temos um raciocínio quando se mantém o concentrado fixo e usa a relação 1: 3 mudando apenas o tipo de forragem, mas assumindo o mesmo consumo. Esse é um manejo muito comum nas fazendas: o pasto acaba e ao entrar na seca utilizando silagem de milho ou cana-de-açúcar, o mesmo concentrado é mantido.

    Podemos observar que no caso do pasto de média qualidade fecha-se a exigência de proteína, porém no pasto de alta qualidade sobra se proteína (+ 0,700 kg) e em relação à silagem de milho e cana-de-açúcar falta proteína (-0,300 e -0,700 kg respectivamente). Ou seja, esse concentrado fecha somente a exigência de proteína de uma das opções de forragem que no caso dessas faltou energia (CNF) na dieta comparada com as dietas silagem milho e cana. A dieta do pasto de qualidade tem se um grande excesso de proteína e, para piorar, falta muita energia (CNF) para otimizar o uso dessa proteína dentro do rúmem pelos microrganismos ruminais. Quem poderia ajudar nessa energia seria o concentrado, só que esse foi formulado com alta fibra (FDN= 31%) e consequentemente baixo CNF (35,7 %), ou seja, muita incoerência, pois temos um concentrado de fibra alta para uma forragem também de fibra alta.

    Em um concentrado de 28-30% de PB feito à base de farelo de soja, milho, uréia e premix mineral vitamínico, o teor de FDN fica por volta de 13% e o de CNF= 46,7%.

    Pode-se ver na tabela acima que esse manejo de manter o mesmo concentrado usando 1:3 independente da forragem leva à dietas que não são balanceadas de forma correta, implicando em queda de produção das vacas. Deve-se então tomar cuidado com esses pontos. Acredito que dificilmente as fábricas mudem o conceito da fórmula fixa dos nutrientes, no entanto, estratégias de balanceamento devem ser propostas pelo nutricionista da fábrica ao atender seu cliente. Isto é, no verão reduzir um pouco o uso dessa ração e colocar no lugar uma fonte energética rica em CNF (milho moído ou polpa cítrica, por exemplo), pois o que falta nessa dieta, principalmente quando usa pasto de qualidade, é energia e não proteína. E no caso da seca, como as opções de forragem são ricas em energia e possuem menos proteína (principalmente a cana-de-açúcar) a estratégia é o contrário. Coloca-se menos ração e suplementa-se com uma fonte de proteína (por exemplo: farelo de soja). Dessa maneira todos saem ganhando: o produtor porque suas vacas dão mais leite e também a fábrica que, mesmo vendendo menos ração, tem um cliente com mais eficiência na nutrição do rebanho e menor chance de desistir do seu negócio.

    No caso da cana de açúcar só a ureia não resolve, pois para fechar os 0,700 kg de proteína que faltam, é necessário 0,300 kg de ureia por vaca na dieta, de acordo com recomendação antiga (1% do consumo de cana - 30 kg). Só que essa recomendação é um grande erro, pois a quantidade colocada nesse caso estará em excesso. Isso não irá matar as suas vacas, mas para eliminar o excesso de ureia do corpo ela terá de gastar energia que poderia ser utilizada para produção ou recuperação de condição corporal. Uma ferramenta de monitoramento é a análise de ureia de leite. Fazendas que antes usavam essa recomendação chegaram a ter mais de 27 mg/dl de ureia no leite indicando um grande problema. A recomendação de ureia de leite do rebanho deve ficar entre 12 a 16 mg/dl. Vale lembrar também que o excesso de ureia circulante no sangue também afeta a reprodução das vacas aumentando o período de serviço dessas e consequentemente o intervalo entre partos da fazenda.

    Para finalizar o último erro é na transição da cana-de-açúcar ou silagem milho ou sorgo para o pastejo. Não se deve achar que alterando a fórmula do concentrado mencionado acima teremos uma melhora na eficiência da vaca. O erro, mesmo que você tenha reformulado o concentrado, é assumir o mesmo consumo de kg de matéria seca de forragem como na tabela 3. A cana e as silagens de qualidade nutricional são de fibra média (FDN de 45% a 50% da MS) e o pasto tropical tem FDN alto (63 a 75 %). Ou seja, a vaca dificilmente irá conseguir consumir a mesma quantidade na forma de pasto, pois o excesso de fibra desse aumenta a fibra da dieta (Tabela 3), o que reduz o consumo da vaca. Isto é, a vaca irá pastejar menos. Como consequência a produção de leite cai (lembre-se de suas vacas nessa época. Não é isso que acontece?). Cem por cento dos produtores que já fiz essa pergunta reclamam dessa queda, mas acham que ela é normal. O problema é que você está perdendo receita e existe uma estratégia nutricional que pode ser usada para minimizar essa perda ou mesmo não tê-la.

    No início desse artigo comentei que não podemos ser amadores quando se pensa na nutrição de suas vacas, pois pequenos detalhes podem impactar todo seu sistema de produção. Lembre-se: alimentar vacas além de muita ciência é também uma grande arte!

    *Hudson Costa é médico veterinário, professor de Bovinocultura de Leite e Nutrição.

    Fonte: Rehagro

     

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