Soluções integradas para a cadeia produtiva do leite e da carne
Meio Ambiente
(postado em 26/06/2008)

Da redação do Portal Boi a Pasto
Na previsão do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, o desmatamento na Amazônia avançou em 2007 e 2008 e deve atingir 14 mil km², contrariando tendência dos últimos anos. Paralelamente, a Amazônia Legal, que recentemente ganhou um banco de dados para servir como subsídio na formulação de políticas públicas para a região, mostra que as áreas modificadas pelo homem, de 748.698 km2, já correspondem a 15% do total da região, com as pastagens respondendo por 7,8%. Ainda nesse contexto, entra em vigor, a partir de julho, resolução do Banco Central que determina aos bancos públicos e privados restringirem a concessão de crédito rural apenas a produtores que estejam devidamente regularizados com os órgãos de fiscalização.
Por outro lado, a alta no preço dos alimentos – conseqüência do aumento da de-manda em países em desenvolvimento como a China e da produção de etanol de milho nos EUA – vai embaralhar a produção agropecuária mundial, especialmente no Brasil, o principal ator dessa mudança. Com a pressão cada vez maior sobre a Amazônia, o País terá que encontrar uma maneira de aumentar a produção de grãos, etanol e carne bovina e evitar a derrubada da mata, especialmente na região Norte, que está sob o holofote do mundo. Como é a atividade que ocupa a maior área explorada economicamente do Brasil, com quase 180 milhões de ha, é a pecuária de corte, inegavelmente, que terá que ceder a área para a produção de grãos e do etanol.
Os especialistas garantem que, mesmo perdendo as áreas para lavouras de grãos e para a cana, a pecuária de corte do Brasil continuará poderosa, mas, com certeza, mais produtiva. A tendência é que, com a tecnologia disponível, conseguirá, simultaneamente reduzir a área de pasto e aumentar a produção. Com isso, a pecuária de corte pode contribuir para aumentar a produção de grãos, etanol e ainda ajudar a reduzir a pressão para o desmatamento na Amazônia. Esse é objetivo que poderá ser alcançado com a integração Lavoura-Pecuária.
Essas foram as principais considerações que levaram a Matsuda Sementes e Nutrição Animal e o Portal Boi a Pasto, a promoveram em São Paulo, durante a última Feicorte, uma mesa redonda para discutir a integração agricultura-pecuária, com o objetivo de transmitir aos produtores e técnicos visitantes da feira os principais benefícios em se adotar o processo de plantio direto e a integração de pastagem com outras culturas, como forma de otimizar a rentabilidade das propriedades e poder oferecer ao rebanho alimentação mais nutritiva, além de ser uma opção viável ao desmatamento.
O evento foi patrocinado por empresas que atuam no setor, como a Incotec, Lallemand, Basf e Bunge/Serrana e teve o apoio da revista DBO. As palestras foram abertas pelo presidente do Grupo Matsuda, Jorge Matsuda, e a mesa teve a participação do coordenador do Programa ILP do MAPA/Brasília, Maurício Carvalho de Oliveira; Nelson Luzin, chefe do Serviço de Promoção e Desenvolvimento Agropecuário da Superintendência Federal de Agricultura em São Paulo; Ronaldo Trecenti, coordenador técnico do Projeto Integração Lavoura-Pecuária da Campo Consultoria e Agronegócios; Dirceu Luiz Broch, presidente da Fundação MS para Pesquisa e Difusão de Tecnologias Agropecuárias, de Maracaju (MS); Ake Bernard van der Vainne, conhecido como Chico Holandês, tradicional produtor da região de Maracaju (MS) e um dos grandes divulgadores das vantagens da ILP; e, Regina Cardoso Margarido, zootecnista responsável pelo Programa de Integração Lavoura-Pecuária na Santelisa Vale Bioenergia, de Orlândia (SP).
Produção de grãos e etanol
"O Brasil pode aumentar a produção de grãos, etanol e carne sem derrubar um pé de árvore", disse Maurício Carvalho, coordenador do Programa de Integração Agricultu-ra-Pecuária e Silvicultura (PIAPS) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Para ele, o coringa para evitar o desmatamento é a pecuária, que ocupa 172 milhões de ha de pastagens. Desse total, 110 milhões de ha são de pastos cultivados e 62 milhões de campos nativos usados para o gado, a maior parte concentrada na metade sul do Rio Grande do Sul e no Pantanal. Dos pastos cultivados, a estimativa é de que pelo menos 40% estejam em estágio avançado de degradação, onde a maior concentração está nos Cerrados. "Dos 60 milhões de ha de pastos formados nos Cerrados, 70% estão em estágio avançado de degradação e têm baixíssima capacidade de suporte", pontua Carvalho.

Maurício Carvalho, do Mapa: "O Brasil pode aumentar a produção de grãos, etanol e carne sem derrubar um pé de árvore".
É aí que entra a integração da pecuária com a agricultura. "No primeiro momento, a lavoura viabiliza a reforma dos pastos degradados a baixo custo", observa. "Mas, depois de reformar toda a área de pasto, o produtor deve continuar usando a agricultura para evitar que se degradem. Tem produtor que, com a integração da agricultura com a pecuária, reforma o pasto a partir do terceiro ano. É que, se não se fizer a adubação de reposição, a produção do pasto cai para 60% no segundo ano de uso e para 36% no terceiro ano", acrescenta.
Experiência de Maracaju
"É preciso mudar a cabeça do pecuarista", diz Dirceu Broch, da Fundação MS, entidade de pesquisa privada, que tem sede em Maracaju-MS e há duas décadas estuda a integração da agricultura com a pecuária. Cita o exemplo do município de Maracaju que, graças à integração, se tornou um grande produtor de grãos, boi gordo e cana. "Não digo que Maracaju — que tem área territorial de 500 mil ha e agricultáveis de 370 milhões (o resto da área é ocupada com reserva legal e área de preservação permanente) — não tenha pasto degradado, mas em quantidade bem menor do que no resto do País", observa, lembrando, porém, que a pecuária é o setor rural que mais perde espaço no município. "Tem o lado ruim e o lado bom dessa perda. Nas fazendas que fazem a integração com a agricultura, a pecuária perde espaço físico, mas, com a melhora do pasto, não só não reduz como aumenta o rebanho. Isso explica a razão de se reduzir a área de pasto, sem redução do rebanho. O lado ruim é que muitos pecuaristas resistiram e agora, descapitalizados e sem capacidade para investir, têm que arrendar suas terras para o plantio de cana ou para os agricultores", lembra. "O problema não é ele não ter outra opção", lamenta Broch, "já que uma reforma direta não fica por menos de R$ 750. Se ele fizer com a agricultura, o custo sobe para R$ 1.400 mas, neste caso, a lavoura paga", observa.
De acordo com Broch, a integração agricultura-pecuária não recupera apenas os pastos. Recupera, diz o engenheiro agrônomo da Fundação MS, a auto-estima do produ-tor e especialmente o valor da propriedade. "Teve gente que tinha recebido um xis para vender a propriedade quando a fazenda estava com os pastos totalmente degradados. Depois que recuperou os pastos com a agricultura, recebeu uma proposta quatro vezes maior", assegura Broch.
Nas regiões do arenito, a Fundação MS não só recomenda a integração da agricultura e pecuária nas áreas degradas mas, também, tem implantado o plantio de eucalipto. Em primeiro lugar, se faz o plantio direto de grãos e eucalipto e, depois de duas safras de grãos, se formam os pastos. Durante os sete anos em que o produtor tem que aguardar a maturação do eucalipto, o produtor também poderá contar com a renda das lavouras nos dois primeiros anos e a da pecuária nos cinco anos subseqüentes. No sétimo, começa a vender a madeira.

Ake Van der Vinne e Dirceu Broch, de Maracaju: "É preciso mudar a cabeça do pecuarista".
Chico Holandês
Dono da Fazenda Cabeceira, em Maracaju, o holandês Ake Van der Vinne — conhecido como Chico Holandês — não começou a integração agricultura com a pecuária por ter pasto degradado. Ele conta que, no início dos anos 80, enfrentava problemas para conseguir palhada para fazer o plantio direto de soja e milho. Na época, não contava com uma cultura de inverno para plantar após a lavoura de verão. Resolveu fazer o teste numa área de pasto degradado de braquiária de um vizinho, mas não havia nenhum equipamento de plantio direto para o cultivo sobre área de pasto. Teve que fazer adaptações. Mais tarde, o envolvimento de Chico Holandês levou uma indústria de equipamentos a desenvolver equipamentos especiais para o plantio direto, utilizando a experiência da Fazenda Cabeceira.
Hoje, com 900 ha na Cabeceira, ele adota o seguinte manejo: um quarto da área formado com pasto perene, dois quartos com soja e outro com algodão — sempre em sistema de rodízio. No esquema, um quarto da área de soja vira pasto perene. Esse quarto de soja ocupa o quarto da área de algodão. Já o algodão avança sobre o outro quarto ocupado com soja que, por sua vez, ocupa a área de pasto perene. No inverno, corta o pasto de tanzânia que é semeado com o milho safrinha. Após a colheita do milho, a área é liberada para pastejo. Um quarto dessa área se torna perene e os outros dois quartos são destinados para o plantio direto de soja e algodão.
Antes da integração agricultura e pecuária, o produtor conseguia produzir em média 25 sacas de soja. Hoje, consegue 61 sacas. "Teve ano que consegui até 68", diz Van Der Vine. Além da soja, produz 204 arrobas de algodão por ha, 20 arrobas de carne na área de pasto perene, 83 sacas de milho safrinha e mais 6 arrobas de carne no pasto formado na área de lavoura no período de inverno.
Produtos certificados e subprodutos
"A produção da madeira — eucalipto, principalmente, obtida no sistema de inte-gração de pastagem com silvicultura — pode gerar produtos certificados, como móveis e carvão vegetal", lembra Ronaldo Trecenti, da Campo Consultoria e Agronegócios, com sede em Brasília, DF, que, em parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), está levando o programa de integração agricultura, pecuária e silvicultura para dez Estados brasileiros. "Mas o grande achado dessa integração já obtido pela na fazenda da Votorantim, em Vazante, MG, é que gado teve melhor ganho de peso — não só por causa do pasto renovado — mas também do conforto proporcionado pela sombra das árvores. Além disso, o capim, protegido pela sombra, manteve-se verde no inverno", conta Trecenti.

Ronaldo Trecenti, da Campo Consultoria, e Regina Margarido, da Santelisa Vale.
Já a zootecnista Regina Margarido, da SantelisaVale, falou da integração da cana-pecuária. O trabalho começou há 22 anos, na Usina Vale do Rosário, em Orlândia, SP. No início, a empresa montou um confinamento para aproveitar os subprodutos da indústria (bagaço hidrolisado de cana, levedura da sangria de fermentação e melaço) para engordar bois. Hoje, a empresa engorda por ano 20 mil cabeças e vende ração balanceada produzida com o subproduto do açúcar e álcool para engorda de mais 20 mil cabeças nas fazendas dos seus fornecedores de cana.
Graças ao confinamento e à disponibilidade da ração, os produtores podem apro-veitar as áreas não propícias para a cana para formar pastos e recriar bois. Normalmente, adotam o manejo intensivo dos pastos para recriar os animais. "Como podem mandar o gado para o confinamento na usina ou comprar a ração pronta para engordar na fazenda, o produtor pode aproveitar a máxima produção de massa para recriar os animais e também não precisa reservar a área para a produção de volumoso", diz a zootecnista. Pelo volume de produção, a SantelisaVale, também, está conseguindo negociar preço melhor com os frigoríficos, graças ao volume e a qualidade dos animais. Outra vantagem da integração boi–cana, segundo Margarido, é que mesmo arrendando a fazenda para a cana, o produtor não abandona a atividade e nem a propriedade. "Ele não perde o vínculo com a terra e nem fica ocioso na cidade", pondera, lembrando que a empresa também está estimulando a engorda de ovinos nas propriedades que têm áreas muito pequenas. "Para a recria de bois, é necessário pelo menos 50 ha", diz. O modelo de integração já foi montando na Usina Santelisa em Morro Agudo e também nas novas unidades da empresa em Minas Gerais.
No final do encontro, o responsável pelo Programa de ILP do Mapa, em São Pau-lo, o agrônomo Nelson Luzin, expôs as negociações que estão sendo amarradas para que o Projeto deslanche no Estado. Nessa primeira fase, de reuniões, o MAPA acompanha a capacitação dos técnicos das entidades estaduais que assinaram o acordo de parceria e busca, ao mesmo tempo, um maior envolvimento dessas instituições no Projeto. “Para chegarmos à fase de organizar dias-de-campo em propriedades que já utilizam a técnica precisamos ultrapassar essa fase preliminar”, explica Luzin.
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