Boi a Pasto - Soluções integradas para a cadeia produtiva do leite e da carne

Boi a Pasto

Soluções integradas para a cadeia produtiva do leite e da carne

Entrevista

Bovinocultura de corte, custos X renda.

(postado em 17/07/2008)

Boa gestão e tecnologia fazem a diferença em momentos de liquidez mais baixa e garantem capacidade de investimento

Por Ivaris Júnior

Nas últimas semanas, a constatação de que os custos da pecuária de corte bovina aumentaram mais do que os preços praticados para a arroba do boi gordo, do bezerro e do boi magro, tem causado manifestações de vários agentes da cadeia produtiva da carne. Segundo estudos da Scot Consultoria, a elevação ocupa uma faixa de 15%a 38%, dependendo do nível de tecnificação da atividade. Quanto mais intensiva, maiores os custos. Porém, segundo Fabiano Ribeiro Tito Rosa,zootecnista formado pela Unesp de Jaboticabal (SP), consultor de mercado, editor chefe do informativo Boi &Companhia e Carta Boi, além de coordenador das divisões de análises setoriais, atendimento à mídia e estatística da Scot, são justamente as propriedades que dispõem de mais tecnologia, as que se mostram mais competitivas e com maior capacidade de investimento, por exemplo, no aumento do rebanho de matrizes. Para Tito Rosa,o aperto de liquidez apenas torna mais lenta a caminhada rumo ao equilíbrio,em um ciclo de alta que deve se manter por dois ou três anos.

Para Fabiano Ribeiro Tito Rosa, consultor da Scot, “crise em pecuária de corte é algo relativo”

Pergunta – Como desenha esse contexto de aumentos crescentes nos custos de produção da bovinocultura de corte?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa - O aumento dos custos se deve, primeiro, à própria recuperação dos preços pecuários, graças ao abate de matrizes e redução de investimentos verificados entre 2002 e 2006, que enxugaram o mercado; afinal, a reposição responde por cerca de 50% a 70% dos custos de produção da recria-engorda, dependendo do sistema e do nível de tecnologia. Depois, é preciso considerar o impacto do bom momento que vive a agricultura. O aumento dos preços dos grãos e, conseqüentemente, dos resíduos, eleva o custo da suplementação, do confinamento e do semiconfinamento. O aquecimento das vendas de fertilizantes, que gera reajuste de preços, impacta o custo da pecuária de alta tecnologia que trabalha com adubação de pastagens. Também gera aumento dos preços, o fosfato, principal matéria-prima dos suplementos minerais, sem contar os reajustes de salário, que levam a um aumento dos custos da mão-de-obra. A Scot Consultoria estima que, em termos gerais, os custos de produção da pecuária de corte tenham aumentado entre 15% (baixa tecnologia) e 38% (alta tecnologia) de abril de 2007 a abril de 2008. Eé por isso que a rentabilidade da pecuária não tem reagido na mesma proporção da valorização da arroba. De toda forma, os resultados de 2008 tendem a ser melhores que os de 2007.

Pergunta – Com o franco crescimento das exportações de carne bovina, podemos pressupor que a demanda tenda a remunerar melhor o produtor, ao longo do tempo ou há um risco de crise no setor por falta de capacidade de equacionar o problema em médio ou longo prazo?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa - Crise em pecuária de corte é algo relativo. Podemos dizer que entre 2002 e 2006 o produtor estava em crise, com custos em alta e preços em baixa. Muitos trabalharam no vermelho. Aliás, o preço médio do boi gordo, em junho de 2006, foi o mais baixo dos últimos 50 anos (em termos reais). No entanto, a indústria estava em crise nesse período? Não, pois exportava como nunca. Aproveitou a abertura do mercado externo, a fartura e a retração dos preços da matéria-prima (boi gordo) para se expandir. Agora a situação se inverteu. É um ajuste natural e cíclico. A recuperação dos preços pecuários já começou a estimular novos investimentos no campo. Dentro de alguns anos o rebanho voltará a crescer e a produção de carne a aumentar.

Pergunta – O quanto um diálogo mais intenso dentro da cadeia produtiva da carne poderia ser Importante para abrir perspectivas emergenciais de solução para este problema?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa - A relação produtor/frigorífico é bastante complicada e não poderia ser diferente, afinal, o boi responde por cerca de 100% da renda do produtor e em torno de 80% do custo da indústria. Portanto, uma ponta sempre irá buscar o preço mais alto possível, enquanto a outra o mais baixo. Mas acredito que a formalização do setor, a organização dos elos, os programas de bonificação/remuneração por qualidade, as parcerias e os contratos de compra e venda são ações bem-vindas, que agem no sentido de minimizar conflitos. E com menos conflitos, os diferentes elos e agentes da cadeia poderão dedicar mais tempo e atenção a questões de interesse comum, como a rastreabilidade, a sanidade animal, o marketing institucional da carne bovina e outros pontos.

Pergunta – Algumas poucas alianças mercadológicas em torno do produto carne bovina podem estar ameaçadas diante deste contexto de perda de renda por parte dos pecuaristas ou mesmo de liqüidez pelos frigoríficos, já que a escassez do boi gordo deve continuar pressionando os preços da arroba?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa – Isso depende dos modelos de gestão/organização dessas alianças. Elas buscam, justamente, melhoria de renda, por meio da comercialização de produtos diferenciados. Diante da escassez de carne e dos problemas de qualidade que se verifica no mercado, acredito que o momento seja propício ao crescimento das mesmas. Para os frigoríficos que entram como prestadores de serviço, trabalhar com as alianças pode ser, realmente, um bom negócio, já que não há necessidade de comprar os animais (que estão se valorizando a galope). Sem contar que o pagamento normalmente é feito pelo sebo e miúdos, cujos preços estão em forte ritmo de alta.

Pergunta – Como políticas públicas poderiam socorrer a cadela produtiva da carne bovina, neste momento?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa – Incentivos à adoção de tecnologias, por meio de financiamentos e isenções/reduções de tributos, são sempre opções que merecem ser estudas. Mas diante do atual cenário de preços, com a inflação voltando a assustar, já estaria de bom tamanho se o governo se mantivesse na condição de observador, deixando o mercado se auto-regular. O temor é que ele se sinta tentado a adotar medidas esdrúxulas como a de alguns vizinhos, que aumentaram a taxação sobre o setor produtivo e ainda buscam conter as exportações de commodities agrícolas. Eles não entendem que se as margens dos produtores não melhorarem, não haverá retomada de investimentos, ou seja, não haverá crescimento sustentado da produção. O ajuste produtivo que se verifica hoje é natural e cíclico. A pecuária brasileira está longe de ser ameaçada de extinção.

Pergunta – Este é um momento em que o produtor deveria estar capitalizado para repor o grande abate de matrizes realizado nos últimos anos, de modo a ofertar um volume maior de bezerros e, conseqüentemente, de boi gordo. Se nada interferir diretamente, com este contexto, devemos esperar um aumento contínuo do preço da carne por quanto tempo?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa - A recuperação dos preços já está promovendo retenção de matrizes. O crescimento do PIB do setor de insumos para a pecuária também sinaliza que a atividade voltou a incorporar tecnologia. São fatores que, no médio/longo prazo, tendem a promover o crescimento da produção de carne. Mas é preciso considerar também que o ajuste produtivo foi bastante intenso e que o aumento dos custos de produção impacta negativamente o ritmo de retomada de investimentos, ou seja,o torna um pouco mais lento.Portanto, a fase de alta do ciclo atual tende a se estender por pelo menos mais2 ou 3 anos.

Pergunta – Podemos estender o problema, ainda que em menor grau, a outras atividades agropecuárias, já que compartilham de algumas matérias-primas?Quais são as mais afetadas?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa - Sim. O aumento dos preços dos grãos, por exemplo, afeta ainda mais a suinocultura e a avicultura. Os reajustes no mercado de fertilizantes, graças à demanda elevada e à valorização do petróleo, afetam os custos principalmente da agricultura. E por aí vai, as coisas seguem.

Pergunta – O quanto este contexto dificulta ainda mais a competitividade da pecuária bovina de corte frente a outras atividades do campo?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa - Nos últimos anos tivemos o "boom" da soja, o "boom" da cana e agora o "boom" do eucalipto, com rentabilidades superiores às obtidas pela pecuária. Mas é preciso considerar também que, muitas vezes, comparamos a pecuária de baixa tecnologia com a agricultura altamente tecnificada, e aí é covardia. A pecuária de alta tecnologia, bem administrada, é bastante competitiva frente a outras atividades. Vale lembrar que os mercados são cíclicos, ou seja, todos têm as fases de "vacas gordas" e de "vacas magras". Quem não administra o negócio profissionalmente acaba pulando de uma atividade para outra de acordo com os ciclos, e muitas vezes ainda o faz no momento errado: entra na alta e sai na baixa.

Pergunta – Há alguma possibilidade de a produção de carne sair mais fortalecida desta crise de remuneração, em termos de competitividade (perdas de espaço em terras)?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa – Sim. A crise chamou a atenção para a importância da gestão e da melhoria dos resultados em termos de lucro ou rentabilidade/ha. Além do mais, a cada crise os agentes menos competitivos acabam sendo expulsos do mercado, ficando os melhores. Dessa forma a atividade vai se nivelando por cima. 

Pergunta – O quanto, mais uma vez, a intensificação da bovinocultura de corte, ou ainda, sua integração com a lavoura, podem se constituir em uma saída de médio prazo?

Fabiano Ribeiro Tito Rosa - A grande sacada é a diversificação. Dessa forma diminui-se o risco da empresa cair no buraco mediante algum tipo de crise que acometa uma das atividades desenvolvidas. A integração, portanto, é uma opção interessante para aumento da produção e melhoria de renda, desde que conduzida profissionalmente. Sem esquecer que é um enorme desafio para o pecuarista se tornar um agricultor.


Governo procura jazidas de fertilizante

A crise provocada pela brutal elevação dos preços dos fertilizantes nos últimos meses, que chegaram a subir mais de 300%em um ano e meio, fez o Governo Federal acordar para um problema que pode atingir em cheio a renda do agronegócio nacional. Em uma década, o governo acredita que o consumo interno de fertilizantes atingirá 25 milhões de toneladas por safra, cerca de 15 milhões de toneladas a mais do que o consumo previsto para este ano.

"O custo disso ao País, nos preços atuais, será de US$ 15 bilhões. O saldo da balança comercial do agronegócio vai atingir US$18 bilhões em 2009. Quer dizer: vamos gastar nosso saldo com fertilizante", avalia Ali Saab, técnico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, destacado para buscar fontes dos insumos básicos para a produção de fertilizantes. As estimativas indicam a necessidade de investimentos de até US$2 bilhões, fora o custo ambiental envolvido no negócio. O relatório com a situação de cada uma das jazidas minerais do País está sendo preparado pelo DNPM(Departamento Nacional de Produção Mineral).


Defesa de medidas para reduzir custos da suplementação mineral

A redução do uso da suplementação mineral na pecuária pode acarretar impactos negativos, como a queda da produtividade do rebanho e, conseqüentemente, da oferta de carne e de leite,e da eficiência econômica da atividade. A previsão é do presidente do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antenor Nogueira, que participou no início de maio de audiência pública na Câmara dos Deputados para discutir os possíveis impactos do aumento do preço dos insumos nos setores de alimentação animal e de fertilizantes agrícolas. Para que os produtores não precisem abrir mão do sal mineral, Nogueira cobrou do Governo medidas para diminuir os custos de produção relacionados a este item, que representa 23,3% do custo operacional da pecuária, sendo a segunda principal despesa dos pecuaristas, ficando atrás apenas da mão-de-obra. "Quem paga a conta com o aumento dos custos sempre é o produtor’; disse o representante da CNA.

Na opinião de Nogueira, entre as providências relacionadas à suplementação mineral que têm de ser tomadas pelo Governo está a inclusão do fosfato bicálcico e do ácido fosfórico, utilizados na nutrição dos gados de corte e leiteiro, na lista de exceções à Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul, com alíquota zero, quando os dois componentes forem importados de fora do bloco sul-americano. A questão depende de análise da Câmara de Comércio Exterior (Camex). Hoje, ao entrarem no País, estes dois insumos são taxados em 4% e 10%, respectivamente. Ele também defendeu a isenção, para os dois produtos, da taxação de 25% do frete cobrado na importação destinado ao Adicional de Renovação do Fundo da Marinha Mercante (ARFMM).

Para o presidente do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antenor Nogueira,"não há como fechar a conta’:

Antenor Nogueira disse ainda que os pecuaristas querem o fim da cobrança de 9,25% do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição Financeira para para a Seguridade Social (Cofins) sobre os suplementos minerais utilizados na alimentação do rebanho. "O sal mineral é o único insumo que paga PIS/Cofins’;afirmou. De acordo com o presidente do Fórum da CNA,o preço da tonelada do fosfato bicálcico aumentou 169,9% de fevereiro de 2007 a abril deste ano, passando de R$ 780 para R$ 2.100. O preço do saco do sal com 90 gramas de fósforo, matéria-prima para o fosfato,subiu de R$27,70para R$48 no mesmo período, um incremento de 81,82%.

Segundo Nogueira, enquanto a arroba do boi teve valorização de 23,43%, de março de 2003 a fevereiro deste ano, o preço do sal mineral subiu 81%. "Não dá para ter uma pecuária de corte com um custo desses. Agora que conseguimos melhorar os preços, temos os problemas dos custos". No caso do leite,mencionou, o preço subiu apenas 2,9% no mesmo período. "Não há como fechar a conta”.
 


Publicado pela Revista Nelore (DBOSul Editores) – edição junho 2008.


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