Boi a Pasto - Soluções integradas para a cadeia produtiva do leite e da carne

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Soluções integradas para a cadeia produtiva do leite e da carne

Entrevista

Barreiras à adoção de sistemas silvipastoris no Brasil

(postado em 14/12/2009)

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Preservação do solo e dos recursos hídricos, promoção do seqüestro de carbono e aumento da biodiversidade local. Todos esses benefícios ambientais são obtidos com a adoção de sistemas silvipastoris (SSP), uma tecnologia que combina pecuária e reflorestamento. Cada vez mais citada por especialistas como a melhor opção ambiental para o estabelecimento de novas pastagens ou para a recuperação de áreas degradadas - e por isso são apontadas como solução para muitos problemas ambientais inerentes ao pasto - a adoção do sistema pode enfrentar grande resistência por parte dos produtores.

Nessa entrevista exclusiva ao portal Boi a Pasto, Moacyr Dias-Filho, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e especialista em recuperação de pastagens, aponta os obstáculos para adoção dos SSP e sugere alternativas para incentivar a adoção desses sistemas.

Boi a Pasto - O que as pesquisas destacam de positivo nos sistemas silvipastoris?

Moacyr Dias-Filho - Como todo sistema agrícola sustentável, o silvipastoril apresenta certas características que os distinguem de sistemas agrícolas convencionais. Dentre elas estariam o emprego mais eficiente de insumos externos e dos recursos naturais disponíveis localmente, assim como o uso mais eficiente (e intensivo) de técnicas de manejo. Muitas pesquisas, aliás, têm enfatizado exaustivamente potenciais benefícios dos SSP, principalmente aqueles ligados à ciclagem de nutrientes, complementação da alimentação animal e aumento da biodiversidade. Apesar da grande quantidade de resultados conclusivos de pesquisa sobre suas vantagens, em particular dos seus benefícios ambientais, muitos produtores rurais ainda se mostram relutantes em incorporar essa tecnologia de intensificação agrícola em seus sistemas de produção.

Boi a Pasto - O que o produtor leva em consideração para adotar tecnologias como esta?

Moacyr Dias-Filho - A adoção de tecnologia é um processo dinâmico regido por fatores econômicos e sociais, inclusive aqueles relacionados à percepção dos produtores sobre as vantagens e desvantagens que o sistema oferece. As pesquisas sobre o tema geralmente enfatizam características inerentes à tecnologia, como o seu potencial de lucro, a necessidade de investimento inicial (custo), a sua complexidade, risco e estabilidade como determinantes primários da probabilidade de adoção. O lucro gerado, isto é, a capacidade de retorno de investimento, seria um fator preponderante para definir sua adoção pelo produtor. Paralelamente, o custo, em particular o de implantação, é chave na decisão de adoção da tecnologia, principalmente dentre os produtores descapitalizados e sem fácil acesso ao crédito. Dessa forma, mesmo que uma tecnologia seja reconhecida pelo produtor rural como lucrativa, a ausência de capital para sua implantação fatalmente impedirá sua implementação.

Boi a Pasto - Nesse caso o dinheiro fala mais alto?

Moacyr Dias-Filho -  Um estudo feito há cerca de dez anos sobre a probabilidade de adoção de sistemas agroflorestais na Amazônia Ocidental mostrou que os produtores, ao decidirem adotar uma nova tecnologia, levam em conta custos e benefícios de sistemas alternativos já em uso e suas próprias limitações financeiras e de mão-de-obra.

Boi a Pasto - E ainda tem os riscos…

Moacyr Dias-Filho - Sim, os produtores se mostram relutantes em adotar tecnologias que possam expor seu empreendimento a maiores riscos. Além do mais, querem ter certeza de que a mudança trará maiores benefícios econômicos do que a prática em uso. Assim, a possibilidade de ter uma renda estável ao longo do tempo teria maior peso como fator decisório de adoção de determinada tecnologia do que a probabilidade de lucro, sobretudo para aqueles produtores com restrição ao crédito. Nesse sentido, ele estaria mais propenso a optar por um sistema de produção que garantisse estabilidade de renda, como pastagens puras de gramíneas, do que por sistemas com menos estabilidade, porém, com maior probabilidade de lucro. Há estudos que mostram que benefícios e custos sociais inerentes a uma nova tecnologia não seriam considerados pelos produtores como fator decisório para adotar essa tecnologia.

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Dias-Filho: “Muitas pesquisas têm enfatizado exaustivamente potenciais benefícios dos SSP, principalmente aqueles ligados à ciclagem de nutrientes, complementação da alimentação animal e aumento da biodiversidade”.

Boi a Pasto - Quais os outros empecilhos para a adoção do sistema?

Moacyr Dias-Filho - A grande oferta de áreas naturais, como florestas e cerrados. Estudos sugerem que a preservação de áreas inalteradas só seria possível se fosse mais barata do que as práticas tradicionais mais extensivas. É por isso que a noção de que os SSP efetivamente contribuiriam para a preservação das áreas naturais e para a melhoria de vida no meio rural poderia não ser uma verdade absoluta, principalmente em regiões de fronteira agrícola, como em grande parte da Amazônia Legal. A razão para isso seria que muito produtores que potencialmente poderiam adotar os SSP estariam em regiões onde ainda existiria certa abundância de áreas naturais para a expansão agrícola e, conseqüentemente, baixo incentivo para a adoção de práticas de intensificação agrícola. Tais constatações sugerem a existência de barreiras que estariam dificultando a adoção dessa tecnologia em escala compatível aos diversos benefícios a ela atribuídos. No caso específico do Brasil, analisando as particularidades de diversas regiões pecuárias do país, seria possível classificar essas barreiras em econômicas, operacionais e culturais.

Boi a Pasto - Cuidar do meio ambiente deve ser uma atividade rentável…

Moacyr Dias-Filho - Quaisquer estratégias que visem benefícios ambientais em atividades agrícolas devem considerar os atrativos econômicos da adoção dessas tecnologias para os produtores. Por sua vez, esses produtores normalmente decidem que práticas utilizar em suas propriedades sem considerar especificamente os benefícios ambientais que elas trazem. Assim, quando práticas que promovem benefícios ambientais são as mais economicamente rentáveis, elas são adotadas de maneira natural e voluntária. No entanto, sob a perspectiva do produtor rural, principalmente daquele descapitalizado e sem fácil acesso ao crédito, estratégias de manejo que promovam benefícios ambientais não seriam necessariamente aquelas mais rentáveis. Ademais, os benefícios gerados pela adoção de práticas agrícolas sustentáveis, como sistemas silvipastoris, são geralmente auferidos dentro de um prazo relativamente longo, enquanto os custos dessa adoção são imediatos.

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“A grande oferta de áreas naturais, como florestas e cerrados são empecilhos para a adoção do sistema”.

Boi a Pasto - O retorno trazido pelo SSP é a um prazo muito longo?

Moacyr Dias-Filho - Um estudo do Banco Mundial mostra que uma das principais barreiras para a adoção de SSP é a sua baixa lucratividade inicial. Isso porque a sua implantação exige maiores investimentos de tempo e dinheiro, os quais diminuiriam a velocidade de obtenção dos lucros. Por esse motivo, nos primeiros anos após o estabelecimento desses sistemas, a renda da propriedade rural seria comparativamente menor do que aquela sob sistema tradicional de pastagem. Afinal, os maiores investimentos iniciais e o tempo necessário para que as árvores cresçam o suficiente para gerar benefícios financeiros diretos ou indiretos. Um estudo feito em uma propriedade rural de 20 hectares na Nicarágua, para a produção de bovinos de corte e leite, concluiu que somente no quinto ano após a implantação a renda líquida do SSP ultrapassaria aquela do sistema tradicional de pastagem.

Boi a Pasto - A adoção do sistema é complicada também do ponto de vista operacional?

Moacyr Dias-Filho - Uma característica marcante dos sistemas agroflorestais é a exigência de mão-de-obra familiar ou contratada além de recursos e insumos locais ou externos. No caso específico dos SSP, a implantação e manutenção requerem mão-de-obra mais capacitada para o plantio de mudas, poda das árvores, etc; infra-estrutura mais elaborada, para a produção de mudas e, principalmente, maior número de decisões de manejo, quando comparados a sistemas mais tradicionais e menos intensivos de uso da terra. As espécies arbóreas, as culturas anuais (no caso de sistemas agrissilvipastoris) e as gramíneas devem ser escolhidas a partir de um número relativamente grande de alternativas, que levem em conta as respostas agronômicas e o retorno econômico dessas espécies quando plantadas independentemente ou em associação. Assim, as decisões de manejo deveriam buscar combinações e rotações ideais de espécies e em estratégias mais eficientes de uso de mão-de-obra.

Boi a Pasto - Na fase de estabelecimento, quais são as principais necessidades operacionais de manejo?

Moacyr Dias-Filho - Proteger as mudas das árvores do excesso de radiação solar e vento, do pisoteio e da herbivoria (gado, animais silvestres e insetos-praga), da competição por plantas daninhas e forrageiras e do fogo acidental. Além disso, o sistema exige práticas de manejo de adubação e controle de plantas daninhas mais complexas do que o monocultivo da pastagem. Isso porque envolvem espécies vegetais completamente distintas, com respostas a herbicidas muitas vezes opostas a determinadas estratégias de manejo. Outra coisa que pode dificultar a adoção dos SSP é que o sistema pode ser visto como investimento de retorno imprevisível. O pequeno ou médio produtor que tenha na criação de gado uma forma de socorro às suas necessidades emergenciais não estaria propenso a investir em sistemas que demandassem uso mais intensivo de mão-de-obra e capital.

Boi a Pasto - Quais os riscos existentes na adoção de SSP?

Moacyr Dias-Filho - Existem alguns riscos que, normalmente, não seriam confrontados pelos produtores em sistemas convencionais de pastagem. Um exemplo é o fogo acidental, uma preocupação constante em decorrência dos danos que poderia causar às árvores e às culturas. Em pastagens convencionais, o fogo pode ser visto inclusive como benéfico por certos produtores, pois seria um agente de controle de plantas daninhas e de renovação da pastagem e, portanto, muitas vezes, incorporado voluntariamente a sistemas mais extensivos de manejo. Outro fator de risco estaria relacionado à escolha das espécies arbóreas para compor o sistema, como o plantio de espécies agronomicamente inadequadas, em virtude da suscetibilidade futura a doenças e insetos-praga, potencial invasivo ou ao efeito nocivo que poderiam causar à pastagem, como o excesso de sombreamento, por exemplo. Ademais, há ainda o risco associado ao plantio de espécies que pudessem se tornar economicamente desinteressantes com o passar do tempo. Isso ocorre em decorrência das mudanças no potencial de comercialização de seus produtos no mercado ou até mesmo por eventuais restrições ambientais para a exploração, isto é, corte.

Boi a Pasto - Em resumo, os sistemas silvipastoris exigem maiores investimentos…

Moacyr Dias-Filho - Em mão-de-obra e infraestrutura, além de maior conhecimento tecnológico por parte dos produtores, sendo, portanto, operacionalmente mais complexos.

Boi a Pasto - Há outros entraves, além dos econômicos e operacionais?

Moacyr Dias-Filho - Sim, aspectos culturais. Os produtores desconhecem os benefícios potenciais que as espécies arbóreas poderiam oferecer à propriedade rural. Além disso, há a crença, cientificamente infundada, de que o provimento de sombra aos animais na pastagem poderia diminuir a produção de carne ou leite. A justificativa seria que o acesso voluntário à sombra reduziria o tempo de pastejo e, conseqüentemente, o consumo de forragem. Outra crença é a de que o capim que cresce sob a sombra das árvores é pouco palatável ao gado, que preferiria o capim crescido sob o sol. Infelizmente, esse tipo de conhecimento popular, muitas vezes, tem sido disseminado no meio rural, passando a ser aceito como verdade absoluta por alguns produtores.

Boi a Pasto - E como vencer essas barreiras?

Moacyr Dias-Filho - Uma alternativa para superar o problema da baixa lucratividade inicial é a implantação de sistemas agrissilvipastoris, isto é, o plantio de culturas anuais como milho e arroz, por exemplo, nos primeiros anos de desenvolvimento das árvores. Essas culturas gerariam renda extra enquanto as árvores estivessem ainda muito pequenas. Após esse período inicial de plantio de culturas anuais, o capim seria plantado e os animais introduzidos na área. Essa, inclusive, é a essência do sistema de integração lavoura-pecuária-floresta que vem sendo preconizado pela Embrapa. Outra forma de gerar renda nos primeiros anos de desenvolvimento das árvores em SSP seria utilizar o pasto para produção de feno ou silagem. No entanto, mesmo com essas alternativas, a situação atual quanto à adoção de SSP é pouco encorajadora. Especialmente entre pequenos produtores, de regiões onde as pressões demográficas no meio rural e o preço da terra são ainda relativamente reduzidos por causa da abundância de recursos florestais. Lamentavelmente, tais regiões seriam as mais beneficiadas pelo sistema. As evidências têm mostrado que, dentro da perspectiva do produtor rural, benefícios ambientais constantemente atribuídos aos SSP, como o aumento da biodiversidade, a conservação dos recursos hídricos e o seqüestro de carbono, teriam importância apenas marginal. Assim, a criação de políticas públicas de linhas de crédito para a implantação de SSP seria essencial para tornar o investimento economicamente viável. O governo teria papel chave para esse fim.

Boi a Pasto - Como devem ser essas políticas?

Moacyr Dias-Filho - Adequadas à realidade das diferentes regiões e ao tipo de produtor rural, se pequeno ou grande, a que serão destinadas. Outra forma de estímulo é o desenvolvimento de políticas que remunerem os produtores pelos serviços ambientais gerados pelas práticas silvipastoris. Tal incentivo aliviaria o ônus financeiro assumido pelo produtor e proveria à sociedade os benefícios ambientais advindos dessas práticas. E um trabalho competente de extensão rural poderia superar as dificuldades relacionadas à falta de conhecimento dos produtores quanto aos benefícios. Persistir apenas em estudos sobre os aspectos puramente biofísicos e técnicos desses sistemas traria pouca contribuição para incentivar o seu uso. Dessa forma, análises simplistas que unicamente exaltam as vantagens dos sistemas silvipastoris ou que vêem na seleção de espécies (forrageiras e arbóreas) os principais problemas a serem superados para estimular a adoção dessa tecnologia não servem à causa de promover o uso dos SSP.

Da Redação do Portal Boi a Pasto


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