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Entrevista
(postado em 08/05/2008)
O aumento no potencial genético do rebanho leiteiro, nos principais países produtores, permitiu significativo incremento no rendimento da produção. Entretanto, em que pese esse melhoramento, o conseqüente estresse imposto às vacas, vem se refletindo nas altas e contínuas taxas de seleção involuntária devido à laminite, à mastite e ao declínio de fertilidade. Esse estresse é provocado, principalmente, pelo gerenciamento inadequado das funções ruminais do gado, conforme explica, nesta entrevista, o Gerente Técnico Global da Lallemand Animal Nutrition (Escócia), John Bax.

John Bax é consultor especialista em gado de leite no Reino Unido.
O especialista explica que a administração correta do rúmen “está crescendo como uma visão primordial para a saúde e produtividade de ruminantes. É importante entender a escala dos processos microbianos e as interações que ocorrem dentro de ambos, o rúmen e o animal. Comparado a outros aspectos da administração do rebanho leiteiro, é dada relativamente pouca ênfase efetiva à manutenção de saúde do rúmen”.
A Lallemand Animal Nutrition mantém um programa específico para o gerenciamento do rúmen, que procura explicar, para os produtores de gado leiteiro, o papel central do rúmen e identifica onde os pontos de estresse são prováveis de ocorrer no ciclo de vida do ruminante, definindo as estratégias para superá-los.
Boi a Pasto – Em que consiste o Programa de Gerenciamento do Rúmen e como ele atua?
John Bax – Quando a função do rúmen é tratada como uma prioridade gerencial, a melhora da saúde e do desempenho animal segue naturalmente. Entretanto, para se conseguir um melhor desenvolvimento balanceado e produtivo do ambiente do rúmen, é necessário compreender os processos e as interações que ocorrem dentro dele. Isso está tornando-se cada vez mais importante como mérito genético, para que os níveis de produção em vacas leiteiras continuem a subir.
O estresse metabólico dos sistemas de produção, que resulta em casos de acidose, laminite, infertilidade e mastite, tem-se mostrado geralmente demasiado alto e tem provocado um impacto direto e negativo na produtividade. Um dos problemas mais comuns para o gado é a acidose ruminal, causada diretamente pela má administração do rúmen. Embora o problema seja bastante difundido, muitos produtores não têm consciência de que seu gado está sofrendo de acidose. Exames recentes mostraram isso tipicamente, revelando que entre 20 e 25% de vacas leiteiras sofrem de acidose. O custo direto da redução do rendimento na produção de leite, dos índices de gordura e de proteína mais baixos e o aumento dos casos de laminite, conseqüências da acidose, tem se mostrado bastante alto. Os produtores também podem perder de 10 a 20% no preço de leite, devido à fertilidade reduzida. Embora a fertilidade seja um problema multifatorial, a nutrição inadequada e a acidose estão intimamente ligadas. O que o Programa da Lallemand busca é exatamente identificar essa situação e propor caminhos para solucioná-lo.
Boi a Pasto – Qual a conseqüência imediata da acidose para o gado?
John Bax – O rúmen contém um ecossistema complexo, que pode fermentar alimentos de relativo baixo valor nutricional e pode sustentar o animal com os produtos finais da fermentação. A fermentação é conduzida por uma combinação de bactérias, fungos e protozoários. Mais de 200 espécies de bactérias ruminais já foram identificadas e cada uma tem um papel específico a desempenhar para o funcionamento do rúmen. Também há populações de fungos no rúmen que executam um papel chave na degradação da fibra e abrem a estrutura da planta com seus rizóides e ação enzimática que, em conseqüência, permite maior acesso bacteriano. Dietas ricas em fibras resultarão em altas densidades de fungos. Dietas que contêm níveis altos de pasto jovem ou cereais reduzirão o número de fungos no rúmen.
Uma das desordens mais comuns em ruminantes é a acidose, o que vem ocorrendo com muita freqüência nos rebanhos. A acidose acontece como conseqüência do fornecimento de alimentos rapidamente fermentáveis, disponibilizados para o animal como forma de se obter níveis mais altos de produção. A acidose pode reduzir o desempenho tanto diretamente, reduzindo a ingestão de alimento, por exemplo, como indiretamente, por condições associadas com a laminite. Até que ponto o desempenho será reduzido, dependerá do grau de desordem ruminal.
Boi a Pasto – Os produtores estão atentos a esse problema?
John Bax – Nem todos. Muitos produtores podem não atentar que seu gado está sofrendo de acidose subaguda do rúmen (ASAR), que pode ser caracterizada por grandes períodos de depressão do pH ruminal. Ela normalmente acontece em grupos ou rebanhos de gado em lugar de animais individualmente. Os dois indicadores chave são variações na ingestão de alimentos e taxas de ruminação reduzidas. Também haverá mudanças na textura de fezes, com fibra não digerida visível e presença de grãos. Gado com acidose também pode produzir bolas ruminais. Em geral, haverá um aumento de transtornos digestivos e incidência de abomaso deslocado. Outra indicação do transtorno digestivo é o maior grau de fezes sujando o rabo e anca do animal, com os sinais ficando mais óbvios à medida que a acidose se torna mais aguda. Porém, é possível que o gado esteja sofrendo de ASAR com pouca ou nenhuma indicação externa visível.
Boi a Pasto – Qual a conseqüência desse pH deprimido, ou seja, com valores mais baixo?
John Bax – Baixo pH do rúmen causa também atrofia e necrose das papilas do rúmen, que é a interface entre o rúmen e a vaca, pela qual uma proporção significativa de AGV é transferida do rúmen. Períodos prolongados de baixo pH do rúmen resultarão em ulceração e tecido cicatricial em sua superfície e redução da sua habilidade para transferir AGV. Quando um animal está sofrendo de ASAR, sua ingestão de alimentos diminuirá, reduzindo a absorção de energia. Em conseqüência, haverá redução na produção de leite e no ganho de peso vivo. Também tenderá a se reduzir o conteúdo de proteína do leite. A gordura do leite também será reduzida, em parte como resultado do mais baixo nível de ácido acético no rúmen, mas também devido a mudanças no processo de biohidrogenação. Haverá ainda aumento na incidência de laminite em rebanhos que estão sofrendo de acidose. Também está associada a uma função imune prejudicada, abscessos no fígado e incidência aumentada de mastite ambiental.
Se o pH do rúmen continuar diminuindo, somente quando estiver abaixo de 5.5, a condição torna-se aguda, com sintomas clínicos. A vaca tentará a reequilibrar o pH ruminal redirecionando água do sangue. Mas, com a diminuição de água do sangue, ocorrerá uma hemoconcentração, deixando o animal severamente desidratado. Essa é uma condição extremamente séria e pode resultar em morte se não tratada prontamente.
Boi a Pasto – Esse problema ruminal pode também estar associado a casos de laminite?
John Bax – A laminite é um exemplo interessante do vínculo entre saúde do rúmen e saúde do animal. É um problema multifatorial e uma das razões mais comuns pelo descarte de vacas do rebanho leiteiro. Estudos recentes desenvolvidos sugerem que possa haver um vínculo microbiano direto no rúmen entre acidose e laminite.
Boi a Pasto – E de que recurso o produtor pode se utilizar para evitar ou reduzir esses casos de acidose?
John Bax - Durante períodos de temperatura ambiente alta, o bem-estar da vaca muda para conter fisiologicamente o estresse calórico. A ingestão de alimento é reduzida e poucas refeições são consumidas. Essa postura é acompanhada pela diminuição na ruminação. Na verdade, o pH do rúmen diminui até mesmo quando uma ração bem equilibrada com fibra estrutural adequada é oferecida. Como a ingestão e o desempenho do animal caem, a tentação é oferecer mais concentrado como alimento para compensar. Mas esse procedimento só irá piorar a situação. Estresse calórico pode ter um impacto negativo sério em rendimento e fertilidade. Os usos de sombra, de ventiladores para refrescar o ambiente e spray de água aliviarão o estresse.
A chave para minimizar o risco de ASAR é proporcionar forragem de boa qualidade de fibra estrutural efetiva, que promoverá a ruminação e a produção de saliva para tamponar o pH ruminal. Vacas podem produzir mais de 180 litros de saliva por dia, que é rica em tamponantes como Na, K, PO4, e HCO3. Para que a fibra estimule a produção de saliva, o tamanho da partícula deve ser maior que 2,0 cm e menor que 10,0 cm e ter um efetivo fator de aderência ao rúmen. Silagens com alta densidade e silagem de milho com partículas pequenas podem causar problemas específicos. Partículas maiores que 10,0 cm serão selecionadas pelas vacas e deixadas de lado. Uma mistura de fibras com diferentes tamanhos formará um tapete flutuante no rúmen, ajudando a reter as partículas dos alimentos e melhorando a eficiência de utilização. As partículas então podem sofrer uma digestão mais controlada pelos micróbios do rúmen. É importante assegurar bom conforto para as vacas, encorajando-as a se deitarem, ruminarem e produzirem saliva.
Deve-se também evitar alimentar com quantias excessivas de carboidratos altamente fermentáveis. Além disso, se for possível, não oferecer grandes quantidades de concentrado na ordenha ou no cocho de alimento. Embora uma vaca possa comer tipicamente até três quilos de concentrado durante uma ordenha, esse fato causará grandes flutuações no pH do rúmen. Uma ração misturada total (RMT) oferecida em combinação com alimento na ordenha pode causar estresse particular para o rúmen, devido ao potencial para uma combinação de escolha seletiva do RMT no cocho de alimento e o efeito de "alimentação rápida".
Boi a Pasto – Há alguma restrição para a alimentação a pasto?
John Bax – Vacas pastando podem estar sujeitas a risco particular de ASAR. Normalmente, um pastejo bem administrado resultará na produção aproximada de 30 litros de leite. Assim, a suplementação com concentrado deve ser oferecida em regra no início e no meio da lactação. A combinação de pasto de alta qualidade — que contém pequena fibra estrutural efetiva — com a ingestão rápida na ordenha de concentrado pode resultar em períodos prolongados de pH de rúmen reduzido. Qualquer período de restrição ao pasto exacerbará o problema. Oferecendo quantias limitadas — 2 a 4 kg MS/cabeça/dia — de um alimento estrutural como silagem de trigo e planta inteira na ordenha, pode-se obter um impacto positivo na provisão de energia e na função ruminal, sem
Boi a Pasto – O Programa de Gerenciamento do Rúmen prevê a utilização de leveduras vivas, os probióticos. Como elas atuam na otimização das funções ruminais?
John Bax – Para melhorar a função ruminal e limitar a acidose, leveduras têm sido extensivamente usadas. Embora haja aproximadamente 500 espécies diferentes de leveduras, a mais comumente utilizada na alimentação de vacas é Saccharomyces cerevisiae. As cepas de Saccharomyces cerevisiae no mercado hoje variam amplamente. A maioria das pesquisas relativas à suplementação com levedura viva na fermentação ruminal foi conduzida in vitro ou com vacas mantidas em confinamento. A originalidade de uma pesquisa sobre o produto Levucell SC, da Lallemand, é que foi conduzida em semiconfinamento, o que é muito mais representativo para vacas leiteiras comerciais. Isso porque padrões alimentares podem ser diferentes em condições de semiconfinamento comparadas com vacas em confinamento, devido, por exemplo, à dominância social. A pesquisa pretendia observar se a resposta ruminal para suplementação com levedura seria também diferente. Foram monitorados o pH ruminal e padrões alimentares nesse trabalho. Vacas leiteiras suplementadas com Levucell SC tiveram maior freqüência de alimentação e melhoria geral significativa de pH de rúmen iniciando uma semana depois do começo da suplementação. Pode-se adiantar que a levedura viva melhorou o ambiente do rúmen. E uma melhor digestibilidade do alimento estimula a freqüência alimentar e assim regula o pH a um nível mais alto.
Boi a Pasto – Qual o impacto da levedura na nutrição e no desempenho do gado leiteiro?
John Bax – Quando para melhorar o rendimento da ordenha, as numerosas tentativas executadas com a levedura viva de Levucell SC ao redor do mundo demonstraram que seu efeito pode depender de uma lista de fatores influentes como: composição da dieta alimentar, fatores fisiológicos e ambientais, genéticos… Um recente trabalho foi projetado a fim de entender e prever essas variações. A idéia por trás era usar a grande porção de dados da vida real disponível, a fim de criar um sistema modelo que permitiria nutricionistas e fazendeiros prever os efeitos da levedura específica para rúmen I-1077 no rendimento leiteiro de acordo com a dieta, a variável mais fácil de ser controlada.
O estudo global envolveu um total de 1.112 vacas leiteiras de mais de oito países diferentes. A parte inicial do trabalho era determinar qual dos fatores dietéticos seria o mais influente sobre a resposta de vacas para a levedura especifica do rúmen. Foram analisados estatisticamente os componentes dietéticos e respostas de produção observadas em dezesseis tentativas diferentes executadas durante os dez últimos anos. É importante notar a diversidade das tentativas em termos de ambiente e dieta, que permitiram ao estudo presente cobrir um amplo leque de condições de criação.
A interação entre as frações nutricionais da dieta e a levedura viva Levucell SC resulta em melhor junção entre a proteína e as fontes de carboidrato no rúmen. Isso se traduz em aumento no rendimento de leite para vacas leiteiras. De qualquer maneira, a resposta ao Levucell SC deveria ser modulada de acordo com a combinação de frações dos nutrientes na dieta.
Boi a Pasto – O Programa também prevê a fase de transição de uma novilha para vaca adulta?
John Bax - O correto manejo de vacas durante a fase de transição é vital. O rúmen deveria ser preparado para a mudança rápida na estrutura da dieta e alimentação após parto. Quando uma vaca está seca, as papilas do rúmen reduzem em tamanho por volta de 50% já que a demanda por elas é reduzida. Um objetivo chave deveria ser maximizar o crescimento das papilas do rúmen durante o período pré-parto. Isso permitirá à vaca aumentar a absorção de AGV do rúmen imediatamente após o parto e assim reduzir o risco de acidose. Alimentar com uma quantia limitada da ração para aleitamento nas últimas três semanas de gravidez, ajudará a microflora do rúmen a se adaptar e a estimular o desenvolvimento das papilas.
Boi a Pasto – Além de acrescentar a levedura na alimentação, os produtores devem tomar outras providências com relação ao seu rebanho?
John Bax – Pode ser necessário revisar a produção de forragem e a estratégia alimentar na fazenda, desenvolvendo-se estratégias para promover longos períodos de saúde e produtividade. É possível formular dietas contendo combinações de forragens mais amigáveis do rúmen, que proporcionarão rendimentos acima de 40 litros/vaca/dia. Em vez de trabalhar com a diretriz de 60% de concentrado é possível formular uma forragem com mais de 60% e manter rendimentos altos com o benefício da saúde animal melhorada.
Durante a última década depositamos muito pouca ênfase em nossa formulação de ração e no entendimento da dinâmica do rúmen e seu impacto na saúde e produtividade da vaca. Pesquisas básicas e bem aplicadas sobre o metabolismo de ruminantes estão nos permitindo agora focar nas oportunidades de incremento da eficiência ruminal. A pesquisa com Levucell SC I-1077 é um exemplo excelente das oportunidades em melhorar a formulação das rações e também da necessidade de aumentar nossas pesquisas sobre o metabolismo ruminal. Em termos de saúde, a acidose subaguda do rúmen é um problema difundido que tem tido vastas implicações para a saúde e produtividade. Todavia, se a correta administração do rúmen for considerada como uma prioridade, saúde e produtividade se seguirão.
John Bax começou sua carreira no segmento agropecuário como criador e responsável por rebanhos na Escócia e Pais de Gales. Formado em Ciência Animal na Scottish Agricultural College complementados com três anos de pesquisa em nutrição protéica em ruminantes. Trabalhou como consultor geral agropecuário e com pesquisa leiteira no sudoeste da Escócia, no desenvolvimento de estratégias de alimentação com novas forragens para sistemas de produção de leite e também proferindo palestras em gerenciamento de rebanhos leiteiros. É consultor especialista em gado de leite no Reino Unido, há sete anos como Gerente Técnico Global da Lallemand Animal Nutrition, atua no desenvolvimento de novos inoculantes biológicos de silagens e no desenvolvimento de programas integrados de nutrição e planejamento de forragens. Atualmente, ele provê apoio técnico com atuação em diversos países europeus, Estados Unidos, Austrália e Ásia, entre outros, para a Lallemand, com enfoque na produção de ruminantes e com um interesse particular na otimização de função ruminal.
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Tenho nao um comentário mas um questao.
Nas formulacões de racões para ruminantes o fato de variarem as fórmulas de uma determinada ração para se obter maior lucratividade com o produto, nao faz com que a adaptacao do rumen ao novo alimento leve algum tempo para se adaptar e ter o aproveitamento desejado? Essas vairiações nuitas vezes são constantes, qual a sua opniao sobre isso?
Obrigado.
Um bom trabalho realizado poucas pessoas sabem.
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Somos pesquisadores da Unesp e estamos desenvolvendo um Sistema de Gerenciamento de Rebanho Leiteiro – SIGREL , o qual seria mais acessível ao produtor nacional, podendo custar +- 30 % do sistema importado de medição e gerenciamento dos dados de controle leiteiro.
Acreditamos que poderiamos agregar valor a este trabalho de gerenciamento do rúmen,de suma importância para os produtores de leite.
Antecipadamente agrademos a atenção e nos colocamos a disposição para maiores informações.